04 fevereiro, 2026

O PEQUENO INQUISIDOR

Sonhei que Jesus Cristo tinha voltado à terra. A acção não se passou na Sevilha do século XVI, mas, há dias, em Lisboa, à porta da casa de André Ventura, a cuja campainha foi tocar. Foi o próprio André, com o seu roupão suburbano e gato ao colo, dando-lhe o ar de excêntrico ditador de uma qualquer república das bananas, que foi abrir a porta e, tendo reconhecido a histórica personagem, não pôde deixar de mandar entrar. Não sou pessoa de andar por aí a revelar os meus sonhos. Mas sobre a longa conversa que ocorreu naquele apartamento, não há segredos por revelar. Tirando um ou outro pormenor, basta ler o capítulo V do livro V de os Irmãos Karamazov. No final, por razões óbvias, o destino de Cristo não foi a fogueira, mas uma marretada naquela santa cabeça que, de ora em diante, já não voltará para importunar os fiéis cristãos que derramam orações como quem debita a tabuada. E assim permitir a alguns continuar a falar em seu nome graças ao seu nome já nada significar.