03 fevereiro, 2026

MOSCOVO

Toni Frissell, Lisboa

«Felizes daqueles que não se apercebem se é Verão ou se é Inverno. Se eu vivesse em Moscovo, creio que também me seria completamente indiferente o tempo que estivesse». Tchekov, As Três Irmãs

Quem é feliz gosta do frio, da chuva, do vento, do nevoeiro, do orvalho matinal, de um chá para aquecer, do calor, do azul do céu, das noites de Verão, da sombra da árvore, da água que mata a sede ou refresca o corpo. Macha em Moscovo não ligaria ao tempo pois seria feliz e quem está feliz vê o tempo como uma extensão da sua felicidade, ao contrário de quem é infeliz, que vê o tempo como uma extensão da sua infelicidade ou a sua infelicidade como uma extensão do tempo. Os portugueses passam a vida a lamentar o tempo. No Verão porque faz calor, no Inverno porque faz frio. A chuva é sempre uma chatice, mas se não chove os Invernos já não são o que eram e ai a chuva que faz tanta falta. Mas basta uma chuvinha no Outono e o mundo volta a ser um lugar inóspito. O tempo é quase sempre doentio, seja por excesso ou defeito. Mais até do que doentio, o tempo em Portugal é uma doença, e dela adoecemos sem pensarmos no calor do Arizona, no frio da Noruega ou como os irlandeses suportam alegremente a chuva todo o ano. A infelicidade é lixada: alguém pode dizer a esta gente onde fica Moscovo?