08 setembro, 2026

CEUTA

Há um ano e tal, andava pelas labirínticas e pobres ruas por detrás do souk de Tétouan, o único estrangeiro por ali, quando, num beco, três garotos que jogavam à bola vêm ter comigo falando berbere e percebo que perguntam de onde sou. Digo, e logo a reacção do costume, com grande algazarra: Cristiano Ronaldo, Cristiano Ronaldo. E eu, para não desfazer o encanto: Hakimi, Hakimi, Hakimi. E todos nós muito contentes com este empolgante encontro ecuménico entre duas civilizações. De seguida, como urgente coisa que tivesse para me dizer, um deles começa a pôr a mão um bom bocado acima da cabeça e fazendo os gestos de quem nada, enquanto vai dizendo qualquer coisa que soa a "Cepta, Cepta, Cepta". Não entendo e logo um outro começa a repetir tudo o que outro fazia e dizia. Acende-se então uma luz na cabeça com "Cepta" (Sebta), som que me ficou na memória quando, nos finais dos anos 70, passei um dia em Ceuta durante a viagem de finalistas a Torremolinos. Estavam pois eles a dizer que quando fossem maiores iriam nadar até Ceuta, certamente para depois passarem para a Europa de onde eu vinha. Talvez um ano e alguns meses tenham sido suficientes para aquelas duas cabeças chegarem à altura da mão, sendo eles dois dos milhares de marroquinos que nadaram recentemente até Ceuta. Ceuta que, para mim, continua a ser apenas a cidade onde fui passar um dia durante uma semana de praia, piscina, bares e discotecas. Ceuta vista da Europa não é a mesma vista de África.