Sou pago para ensinar filosofia, tenho por isso que tentar ensiná-la e até gosto de ensinar. Mas gosto ainda mais de ensinar palavras, dar a conhecê-las, torná-las acessíveis e familiares, explorar a sua etimologia, escrevê-las no quadro, dar exemplos práticos, levar um aluno a inventar uma frase para poder aplicá-la. Por cada palavra nova, imagino uma luz a acender-se nessa cave escura que é a cabeça de um ser humano desprovido de palavras e, pouco a pouco, a cave transformada numa cidade iluminada. Ensinar filosofia, como quase tudo na escola, é ensinar para esquecer. Ensinar palavras é ensinar a não esquecer o que distingue um ser humano de um animal que bale, como o carneiro. Circe transforma os companheiros de Ulisses em porcos. O que temos agora é uma juventude baleada, não por balas, mas pela acção insidiosa de um sistema educativo que pouco estimula e exige, o qual, aliado a uma certa desordem natural das coisas, junta a falta de comida à falta da vontade de comer. O resultado está à vista.