28 junho, 2026

SEM TÍTULO

Marques de Oliveira, Interior (Costureiras trabalhando) ou Entre o Almoço e o Jantar, 1884, Museu Soares dos Reis


Para que serve o título de um filme, livro ou quadro? Para nada a não ser poder nomeá-lo, como chegar a uma loja e pedir logo um martelo em vez de um utensílio com cabo de madeira e uma cabeça metálica para pregar. Não só é mais prático, mas porque também seria o cabo dos trabalhos um mundo sem nomes próprios e comuns. Fora isso, um título não passa de ruído, ou pior, um nome esfregado no cérebro para formatar a percepção. Veja-se este quadro, vá-se lá saber porquê, com três títulos: o original (Entre o Almoço e o Jantar), mais dois acrescentados pelo museu. Uma barulheira. Uma barulheira que faz com que em vez de um só quadro tenhamos três quadros diferentes. Até posso ser simpático e dizer que se torna estimulante por levar as nossas cabeças a fazer ginástica: vê-se o quadro, dá-se uma cambalhota e passa-se a ver outro, nova cambalhota e outro ainda. Agradeço o estímulo, mas entre três títulos e nenhum preferiria nenhum. E como o normal é haver um só título, isso faz com que o cérebro, em vez de ginástica, adquira uma posição rígida, sem mexer um neurónio para dar sentido ao que tem à frente. Talvez o ideal fosse mesmo, como na música clássica, números (5ª Sinfonia) em vez de títulos. Já o havendo na pintura (Rothko, por exemplo), passaríamos a ter o romance Nº3 de Saramago ou o filme Nº15 de Woody Allen. Também em Nova Iorque e em Espinho as ruas são assim e as pessoas não se perdem.