Fui hoje incumbido de vigiar o exame de História da Cultura e das Artes. Estando a sala muito abafada, resolvi metamorfosear as 16 páginas do enunciado num leque para me refrescar. Estava eu naquela mecânica gesticulação quando recordo a bela colecção de leques do museu Lázaro Galdiano que me suscitou o mesmo melancólico desabafo de Proust quando diz à governanta que podemos admirar os leques de outros séculos numa parede mas falta uma mão para lhes dar vida. Daí o privilégio de fazer com o enunciado o mesmo que Marcel Duchamp com o urinol, Tracy Emin com o seu quarto, Francis Alÿs com o pavão em Veneza ou Piero Manzoni com os restos das suas refeições: um leque, e um leque com uma mão para lhe dar vida. E eis como a minha vigilância extrapolou a sua mera função burocrática e policial, dela resultando o meu inestimável contributo pessoal para a História da Cultura e das Artes.