10 junho, 2026

MAR PORTUGUÊS

Josef Koudelka, Portugal, 1976

Eis Portugal. Ou o que, apesar do 25 de Abril e da Europa, continua a ser Portugal. Há aqui uma tristeza tão portuguesa que faz com que esta fotografia esteja para Portugal como as canções de Tom Waits para a América. Portugal não é um país alegre, mesmo quando está alegre, os portugueses alegram-se só para se esquecerem que são tristes. Daí Ernesto Sampaio dizer que ver um português a rir dá vontade de chorar. Há aqui um spleen lusitano, uma chuva invisível e desmaiada que molha mais por dentro do que o mar por fora. Veja-se o maneta. O maneta não vai. O maneta vem, e com o ar de saber que quem dá o que pode a mais não é obrigado, mesmo com uma imensidão de mar ali à frente. Nós, portugueses, como o maneta, sofremos o destino de Tântalo, padecendo de sede mesmo com água encostada à boca, vendo esta afastar-se quando tentamos bebê-la. Nós, portugueses, temos um braço para nadar, mas falta-nos sempre o outro que nos impede de nadar bem. Sonhamos, desejamos, mas depois lá ficamos condenados a atrapalhar-nos dentro de água e a beber a água salgada que não mata a sede. Graças ao 25 de Abril e à Europa, conseguimos iludir esta fotografia, mas nem com isso escapamos do nosso destino de manetas, sendo mesmo ultrapassados por quem chegou ainda mais pobre que nós. Tanta pobreza, tanta ignorância, tanta pelintrice, tanto lixo, tanta decrepitude fora dos centros turísticos, tanta incapacidade para resolver problemas de décadas. Consigo imaginar o maneta a caminho do mar, o maneta a mergulhar, a atrapalhação do maneta antes de vermos este seu desiludido regresso, ecoando-lhe nos ouvidos os berros daquela criança do Restelo que, como um coro grego, o confronta com o seu triste destino.