Quando era novo gostava muito de uma certa banda da qual tive vários discos. Música dos anos 70, solos de guitarra dos anos 70, melodias dos anos 70, coros dos anos 70, e tudo muito de acordo com os penteados, roupas e até coreografias dos anos 70. Há tempos, depois de estar a ouvir velhas canções no You Tube, resolvi enviar uma das minhas preferidas aos filhos para ver a reacção. A filha ficou horrorizada, o filho limitou-se a tolerar. Dias depois, com rapazes da minha idade que não via há anos, fui bem acolhido: "Grande banda!", "Os maiores!", "Ainda os oiço no You Tube". Nem o nosso sistema nervoso, nem os padrões civilizacionais mudam em uma ou duas gerações de modo a justificar tão distintas reacções. Não por acaso, quando passo a Rondo Alla Turca aos alunos logo vejo cabeças e dedinhos a mexer. Como explicar então, com poucas décadas de distância, esta fronteira entre ouvidos que ficam arranhados e outros deleitados com os mesmos sons? A resposta é mais simples do que parece: nós gostámos porque fomos jovens nos anos 70, eles não gostam por serem jovens agora. Há registos que são universais, agradando ou desagradando universalmente, o que explica a cabeça e os dedinhos embalados por Mozart. Mas há outros de que gostamos só porque o vento está de feição e outros de que não gostamos porque o vento sopra noutra direcção. Só isso, o ar do tempo. Ora, o mesmo se passa com as ideologias. Há ideias e valores que vão atravessando a história de modo mais ou menos consensual, como num dia sem vento em que nem uma folha de papel mexe. Mas depois lá vêm os dias ventosos, fazendo com que os jovens virem mais à direita, como em tempos viraram mais à esquerda. Sem saberem como e porquê.