Abro a folha de teste de um aluno e chega-me ao nariz o cheiro de uma casa onde entrei pela última vez há mais de 50 anos. Nada de surpreendente, todos temos uma boa colecção de chás e madalenas. O que impressiona é o modo como estes conteúdos estão incubados na nossa mente sem darmos por eles, vindo ter connosco só porque um mero acaso lhes abriu a cancela num canto obscuro da nossa mente. Estou inclinado a pensar que o mesmo se passa com as nossas ideias. Nós não descobrimos ideias, as ideias é que nos descobrem, tirando-nos a cobertura que nos impedia de as ver. Não temos as ideias que temos na sequência de processos dedutivos ou outras complexas elaborações mentais. Como o cheiro que estava secretamente incubado, surgem sem estarmos à sua espera, fazendo de nós liberais, comunistas, ecologistas, fascistas, racistas, xenófobos, homofóbicos, moderados, radicais, pró-europeus ou anti-globalização. Claro que, a posteriori, podemos argumentar a favor ou contra as ideias, mas, antes disso, são como cheiros que nos atraem ou repelem e, como o Chanel nº5 ou um Acqua di Parma, ou se gosta e usa-se, ou não se gosta e não se usa. Sim, por vezes muda-se de perfume e sem saber como e porquê. Com as ideias também, embora com a ilusão de o sabermos, tal como um relógio com consciência iria acreditar que faz movimentar os ponteiros de acordo com a sua vontade.