08 maio, 2026

EGOCRACIA

A pessoa acredita em Deus. Nada contra. Pergunto se acredita que Deus é omnipotente. Sim, acredita. Pergunto então se Deus pode fazer com que 2+2 sejam 5, com que alguém casado seja solteiro ou que um quadrado tenha três ângulos, e a pessoa, coerente com a sua crença na omnipotência de Deus, diz que sim. Eu, para a aliviar desse peso, esclareço que acreditar na omnipotência de Deus significa apenas acreditar em coisas logicamente possíveis e aqueles três exemplos são logicamente impossíveis. Não, não precisa de acreditar que Deus possa fazer aquilo para ter de acreditar na sua omnipotência. Pergunto se Deus é omnisciente. Sim, acredita, prosseguindo a luta pela sobrevivência da sua coerência: se Deus é omnisciente, para acreditar em Deus é preciso acreditar na sua omnisciência. Eu pergunto se Deus sabe quantos cabelos tem na cabeça, já descontando aqueles dois ou três que podem ter caído há minutos. Sim, sabe. E a quantidade de cabelos de todas as pessoas que vivem no seu prédio? Sim, também sabe. E de todas as pessoas que vivem na cidade? Continua a saber. E quantos cabelos tem cada um dos 10 milhões e tal de portugueses? Também sabe. Presumo que se perguntasse se Deus sabe a quantidade de cabelos de todos os seres humanos ou a quantidade de pelos de todos os cães e gatos existentes, iria dizer que sim. A pessoa acredita em Deus. Nada contra, e, por variadíssimas razões, considero até normal. O que me surpreende mesmo, sendo infinitamente mais interessante do que acreditar em Deus, é a infinita capacidade de uma pessoa para acreditar em si própria.