04 abril, 2026

SER COLUMBANO

Comprei o livro das cartas de Manuel Teixeira Gomes para Columbano Bordalo Pinheiro a pensar no que se espera de um esteta e homem solar que fala de paisagens mediterrânicas, "sinfonias de cor e luz", mar, amendoeiras em flor, jardins palacianos, "altíssimos ciprestes, que na arquitectura dos parques são como os minaretes das cidades do oriente", esculturas gregas e romanas, pavões, um luxuriante périplo entre Tânger, Argel, Tunes, Siena, Pisa ou Florença. Sim, mas entretanto dei por mim a pensar nos olhos de Columbano, na sua cela doméstica, a percorrer aquelas linhas de tinta e no que ocorreria no espírito de quem esteve em França em pleno apogeu impressionista sem pintar ao ar livre ("Nunca pintei ao ar livre porque nunca me apeteceu"), de quem, segundo Diogo de Macedo "Vivia no convento e contentava-se com a cerca. Ao passear nesta, velava a vista com a luneta escura, por causa da luz que lhe magoava a harmonia dos tons". Desconfio que fosse alívio, um íntimo prazer por não ser Teixeira Gomes comprazendo-se com a sombria paleta de uma clandestina existência. Ao contrário do irmão, levou uma existência quase espectral, à semelhança dos seus espectrais retratos e ambientes. Sinto-me grato a Teixeira Gomes pelo modo como transforma as suas viagens em elevados momentos de arte e literatura que nos faz apetecer reviver. Mas também não menos grato a Columbano pelo seu prazer em ser Columbano e não ser Teixeira Gomes, por nunca lhe ter apetecido pintar ao ar livre, deixando-nos, graças a isso, a melhor pintura da sua geração para enorme prazer dos nossos olhos.