Na fila à minha frente vinha um jovem casal com dois filhos, um pelos três anos, o outro ainda bebé. Foi impressionante o seu esforço, engenho e criatividade para distrair os filhos durante as quatro horas de viagem, os quais lá se foram aguentando, ainda que com umas curtas birras pelo meio. Ora, o que é a vida senão também uma viagem em que temos que nos distrair para a levar da melhor maneira, evitando birras adultas, isto é, neuras e tédio? Aqueles pais que distraíram os filhos vêm a Portugal para quê? Para se distraírem. Há quem se distraia a viajar, ler, escrever, tocar, pintar, jogar, ver filmes, pescar, caçar, ir ao café, ver televisão, falar ao telefone, conhecer restaurantes novos, caminhar, dedicar-se à horta, jardinar, bricolage, desporto, etc. E sim, trabalhar, há muito quem trabalhe para se distrair. Chegado a Lisboa, apanhei um comboio regional cheio de adeptos benfiquistas que vinham do estádio. Dois deles, de gorro e cachecol vermelhos, já nos sessenta, vinham agarrados aos telemóveis a acompanhar o jogo do FC. Porto, e a fazerem scroll em sites de jornais desportivos, lançando comentários avulsos sobre o que iam lendo. As coisas que eu fiquei a saber! Todo um mundo enciclopédico, um doutoramento em informação futebolística. Devem acordar e adormecer a pensar em futebol e assim se distraem enquanto envelhecem e se aproximam da última estação, como outros falam de restaurantes, ou de livros, ou de carros, como me aconteceu há semanas, inserido num grupo que parecia não saber falar de outra coisa. Não tem mal nenhum, cada um distrai-se como quer, apenas não é essa a minha distracção, quero lá saber de carros. Mas quero saber de outras coisas. A distração tem má Filosofia, basta pensar em Pascal, Schopenhauer ou Heidegger. O que é injusto. Falta ainda (se há, desconheço) uma grande obra filosófica dedicada ao valor existencial da distracção. A qual, já agora, sendo bem escrita, pode mesmo proporcionar bons momento de distracção.