11 março, 2026

MUSIC FOR AIPORTS



 



Dia de muito frio, um vento gelado e fustigador. Mas entretanto dou por mim, quente e seco, numa sala de espera, diante de um vidro a fazer lembrar aquelas campânulas com uma paisagem em miniatura e que, se abanadas, fazem mexer flocos de neve, visão que aumenta o conforto de quem está protegido da intempérie. Estou a ouvir, não o Brian Eno (embora pudesse ser), mas um piano solo de Keith Jarrett no momento em que pouco antes, tal como nesta fotografia, passara lentamente um  avião na pista. Não há cenário menos poético do que a pista de um aeroporto, mas, ali, com os phones a isolarem-me do ruído à minha volta, imerso no melancólico fraseado do piano, senti aquela silenciosa e desfocada lentidão a deslizar pela neve e o nevoeiro como a coisa mais poética do mundo. Só que a música termina e logo tudo muda, como se a realidade me desse um beliscão para me acordar. Eu passo a vida a dizer que, no cinema, a música é quase sempre tão importante como a imagem. Claudia Gorbman, professora de cinema, diz mesmo que a música é o inconsciente do filme. É preciso ver um filme para o perceber. Mas também é possível, mesmo com os olhos fechados, perceber as suas oscilações dramáticas só pela música. Naquela sala de espera, a música interrompida foi como se as luzes da sala de cinema se tivessem de repente acendido ainda com o filme a decorrer, ficando com a consciência de estar num aeroporto em vez de um sonho.