Uma das coisas mais engraçadas no filme O Olho do Diabo, de Bergman, é o modo como Ele, o Diabo, surge representado. Não redundantemente diabólico, monstruoso, assustador, aterrorizador, de um vermelho ígneo e sinistros corninhos, mas como um ser humano perfeitamente normal. Olhamos para Ele e vemos alguém que poderíamos encontrar numa dependência da Caixa Geral de Depósitos, como empregado de restaurante, dono de uma sapataria, professor, militar ou político. E não é apenas engraçado, é também pedagógico. Porque refreia o excesso de imaginação que nos faz ver uma figura que nunca existiu, associando-o a quem melhor o representa: ecce homo! Precisámos de quase dois mil anos de história para conseguir um único ser humano para o papel de Deus, e que mesmo assim acabou prematuramente pregado no madeiro, para bem dos nossos pecados. Já quanto ao Diabo, a escala temporal reduz-se drasticamente, ao mesmo tempo que aumenta, e não menos drasticamente, a escala humana. Quais milénios, séculos, anos, ou mesmo meses! Todos os dias, a todas as horas, nos confrontamos com Ele, Senhor das Trevas, e nem é preciso coincidir com o Telejornal. Basta sair de casa para, minutos depois, muito provavelmente passarmos por Ele, ainda que sem darmos conta disso pois tão bem disfarçado anda por aí.
