Na filmografia de Bergman, O Olho do Diabo é uma das raras ilhas de humor e jovialidade rodeadas de drama por todos os lados. O filme é inspirado no provérbio "A castidade de uma jovem é um terçolho no olho do diabo". Daí o Diabo enviar à Terra o irresistível D. Juan com a missão de evitar que uma donzela prestes a casar o faça virgem e assim curar o incomodativo terçolho. Assistimos então a uma batalha entre o poder do céu e o do inferno, uma velha batalha e que perdurará enquanto o ser humano for humano ou mesmo pós-humano. A subtileza metafísica de Bergman está no modo como vai eleger os vencedores e vencidos. Contrariamente à esquemática visão que suporta religiões e moralismos, ambos ganham e perdem. Quando se prevê a força do diabo a derrotar os mais nobres sentimentos humanos, uma reviravolta deixa o próprio D. Juan com mazelas no coração e o Diabo às voltas com o seu terçolho. Mas quando já se ouvem as angélicas trombetas do céu a comemorar a vitória, eis que surge uma boa razão para o terçolho do diabo desaparecer. Fosse um jogo de futebol e acabaria com um empate. Deus e o o diabo vivem um do outro, mutuamente empatando-se, e nós, ínfimos insectos, nascemos do amor que há entre eles. O nosso cântico não é, por isso, negro, como o de Régio. É cinzento, ora mais escuro, ora mais claro, consoante os casos.
