Quando cheguei há dias a uma cidade estrangeira, na manhã seguinte, ainda de madrugada, os primeiros sons que ouço são os de um cão a ladrar. Estou longe de casa, num lugar que não conheço, nem sequer a primeira rua que irei encontrar ao sair do hotel, mas sou embalado por um som familiar, um som universal e intemporal, um som sem geografia nem história, que tanto posso ouvir em casa como na China, hoje ou há milhares de anos. Como diria S. Paulo, não há cão europeu, africano ou asiático, e se jamais haveria Torre de Babel num universo canino não é só por Deus não ser levado a criar várias línguas num aparelho fónico tão limitado, mas também por os cães olharem mais para o chão através do nariz do que para o céu através de uma alma inquieta. Está mais que visto de que se tivesse sido um filósofo na velha Grécia, muito provavelmente seria um cínico.