Fica difícil olhar para a fotografia de cima, sem pensar na Execução de Saigão, a célebre fotografia em que um polícia sul-vietnamita executa a sangue-frio um militar vietcong. No campeonato da brutalidade a de cima consegue vencer. Não se trata da execução de um inimigo durante uma guerra, com os ódios e ressentimentos que esta exacerba, mas de alguém que apenas nasceu judeu, sendo apenas mais um lançado para a multidão na vala comum. Olhamos para a fotografia de cima e percebemos o seu valor documental. Uma representação mas também a confirmação de um facto histórico entre tantos outros milhares de documentos. Daí a enorme relevância do zoom da fotografia de baixo, através do qual nos alheamos do documento para nos concentrarmos num homem. E há um homem por detrás do militar, cuja identidade foi recentemente descoberta. Eis Jakobus Onnen, professor de Inglês e Francês, nascido numa família de classe média, perto da fronteira com a Holanda. No dia da fotografia tinha 34 anos, sendo nazi desde a primeira hora. Morreu em combate na Ucrânia, em 1943. Dizia Kierkegaard que a multidão não tem mãos, não tem rosto, que uma multidão não tem vergonha nem culpa porque não existe ninguém na multidão, apenas uma massa amorfa. Jakobus, o professor Jakobus, o ainda jovem Jakobus, como todos os outros milhares que o acompanham na chacina, é um indivíduo com mãos e rosto, e se não sente vergonha ou culpa é devido ao mal da banalidade que o levou a banalizar o mal. O ser humano passa muito facilmente da normalidade à aberração, basta criar as condições para tornar a aberração normal. Não é apenas a mentira que repetida várias vezes se torna verdade. Também o cheiro fétido de uma ideia, crença ou comportamento, deixa de se sentir quando nos habituamos a ele. O cheiro de uma cidade no século XIX seria insuportável para os nossos sensíveis narizes. Mas ninguém dava por ele, como Jakobus não dava pelo cheiro fétido das suas crenças e acções. Parece-me conveniente pensar que uma cidade do século XXI não está livre dos maus cheiros, basta uma apocalíptica avaria do saneamento básico. Como é hábito e normal, os mais sensíveis não serão capazes, mas muitos outros habituar-se-ão ao cheiro.

