14 janeiro, 2026

COM A VERDADE ME ENGANAS

Há dois tipos de portugueses: os que dizem chapéu-de-chuva e os que dizem guarda-chuva. Os que dizem chapéu-de-chuva sabem o que é um guarda-chuva. Mas imaginemos que não. Se perguntássemos a uma pessoa com chapéu-de-chuva se tem um guarda-chuva, iria responder que não, levando quem pergunta a acreditar numa coisa falsa sem que a outra esteja a mentir. Algo do género pode acontecer quando se pergunta coisas como: "És racista?", "Acreditas em Deus?", "És patriota?".  Sem estar a mentir, pode-se responder que não quando deveria ser sim, ou sim quando deveria ser não. Ou dar mesmo a resposta correcta, mas  não coincidir com a que seria correcta para o outro. Daí duas pessoas poderem acreditar que pensam da mesma maneira quando, afinal, pensam de maneira diferente, ou acreditarem que pensam de maneira diferente embora pensem da mesma maneira. Daí a pergunta nunca dever ser: "És racista?", "Acreditas em Deus?", "És patriota?", mas antes "Sendo racismo X, sentes-te identificado com X?". Primeiro definir, delimitar o conceito e só depois perguntar. Se uma pessoa com guarda-chuva perguntar a uma outra com chapéu-de-chuva que responderia que não se lhe perguntasse se tem um guarda-chuva: "Tens um objecto constituído por um cabo e que através de varetas permite abrir um tecido impermeável para te protegeres da chuva?", irá, sem equívocos, responder que sim. Só que isso dá muito trabalho, e o que se quer são respostas rápidas, mesmo que leve as pessoas a enganarem-se umas às outras. Mas também é verdade que andar ou não enganado tem cada vez menos importância.