12 abril, 2021

Uma pessoa sente-se tentada a concordar com Kafka quando ele diz a Gustav Januch que num mundo sem Deus é quase uma obrigação moral o sentido de humor. Mas, pensando melhor, é bem capaz de ser o contrário. Num mundo tutelado por Deus é mais premente o humor uma vez que há uma ordem estabelecida e uma das funções mais nobres e elevadas do humor é instalar uma certa desordem no mundo. O humor é subversivo, corrosivo, desmistificador, desidealizador. Num mundo sem Deus, pelo contrário, é preciso ser sério. Vive-se como uma criança que fugiu de casa e que precisa de sobreviver apenas pelos seus próprios instintos. A  obrigação moral, neste caso, ao contrário de um mundo com Deus, no qual, como em Abraão, basta a fé para dar um sentido às nossas vidas, é pensar seriamente sobre o que não está previamente pensado. Quer isto ainda dizer que a importância do sentido de humor num mundo sem Deus é também para assim nos podemos rir de nós próprios e dos outros que são também como nós próprios. Enfim, não era isto que eu tinha pensado dizer quando comecei e não posso evitar um sentimento de estranheza por tão espontânea mudança. Mas também é verdade que quando Gregor acordou no dia seguinte já não era o mesmo que adormecera na noite anterior.