27 outubro, 2019



Pode chover ou abater-se uma tempestade, mas não é isso que conta; uma pequena alegria pode surgir frequentemente num dia chuvoso e fazer um homem parar algures, para ficar sozinho com a sua felicidade, ou então levá-lo a levantar-se e olhar para diante, independentemente do sítio onde se encontre, para depois se rir tranquilamente uma e outra vez, enquanto observa tudo em seu redor. O que é que existe à nossa volta que nos faça pensar? Uma vidraça límpida de uma janela, um raio de sol na vidraça, o avistamento de um regato ou talvez uma faixa de azul entre as nuvens. Não é preciso mais do que isso. Knut Hamsun, Pan

O desejo de eternidade poderá ser sublime mas, como uma tempestade no mar ou um vulcão em erupção, demasiado esmagador para o desejo humano. Eternidade, absoluto, infinito: apesar da sua anelante aura romântica, não passam de arquétipos vazios. Ou antes, é por causa da sua anelente aura romântica que não passam de conceitos vazios. O A=A, como diz Hegel na Fenomenologia do Espírito, é uma pura identidade sem vida, sem o drama da história ou da biografia, sem as dores e as alegrias do mundo. Até Deus, que no Livro do Êxodo se apresenta a Moisés como "Eu sou Aquele que sou", se cansou dela enquanto nos olhava melancolicamente lá de cima, como os anjos de Wenders. A encarnação faz por isso todo o sentido num Deus cansado de pensar sem nos ver nos olhos e de ser pensado sem os seus olhos serem vistos. O que é a encarnação senão um Deus que se desensimesma, atirando-se para a fugacidade do instante? Um Deus mergulhado no espaço e no tempo, com pernas para andar, mãos para criar e boca para falar, que tanto ensina na montanha, como entra em casa de Marta e Maria, cura Lázaro da morte, se ira no templo ou entra festivo em Jerusalém.

Daí a nossa sorte em sermos cristãos ao invés de outra coisa qualquer. O cristianismo é a religião de um Deus que se faz carne, sente, emociona, ama e se irrita mas não como o Pai na sua infinita omnisciência e omnipotência. Ama e irrita-se como Deus que deixou a sua transcendente intemporalidade para se assumir num tempo estilhaçado em instantes, cada um com a sua identidade e diferente de todos os outros. O que o cristianismo tem de melhor para nos oferecer pode ser o amor mas também o tempo, em vez da rígida e transcendente lei e de uma perfunctória adoração própria de uma consciência infeliz e dilacerada pela separação entre si e o divino. Nós vivemos no tempo, em minúsculos instantes como se fossem sonatas que se desejam repetidas num processo de eterno retorno, até mais não podermos. Deus quis ser homem. O homem jamais será Deus e ainda bem. Do que precisa mesmo é de aprender a viver com a grandiosa sabedoria das pequenas coisas.