15 junho, 2019

Há situações em que temos de implorar aos deuses generosas doses de paciência e tolerância. Por exemplo, certos estados de alma de feministas tontas, que até se desculpariam na manhã seguinte a uma noite de bebedeira ou numa depressão pós-parto. O que não quer dizer que não haja situações em que as mulheres são discriminadas. Há. Veja-se este artigo que centra na mulher o moderno desejo de não querer ter filhos. Ser protagonista em vez de actor secundário pode ser desejável no cinema mas associar mais a mulher à maternidade do que o homem à paternidade, parece-me errado, como errado será responsabilizar mais a mulher por uma situação tão dramática como é a fraca natalidade. Dar aqui mais importância à mulher do que ao homem fá-la injustamente carregar o peso da culpa por um desvario demográfico cujas consequências nefastas são enormes.

Claro que há muita gente a não poder assumir a maternidade ou a paternidade, havendo mesmo casos em que seria uma irresponsabilidade fazê-lo. A seca de filhos, porém, ultrapassa estados de contingência, seja feminina ou masculina, sendo antes cultural e axiológica: um crescente individualismo e hedonismo. Casar com o objectivo de ser feliz é um recente desígnio. Não quer dizer que as pessoas não pudessem ser felizes no casamento, podiam, mas não era para serem felizes que casavam. Casavam para constituir família, segundo uma dinâmica em que cada uma das partes está subordinada à racionalidade do todo, tal como num exército ou numa fábrica. Não por acaso a ruptura entre a vida de solteiro e a de casado era evidente e mesmo sabendo-se que casar e ter filhos implicaria obrigações e sacrifícios, não deixava de se assumir como destino natural de qualquer homem ou mulher. Ora, isso acabou. E acabou porque o indivíduo, com os seus desejos, crenças e necessidades vem sempre primeiro que a tribo, a nação, a família. Já não existe um todo anterior à soma das partes, apenas partes que cumprem as suas ambiciosas e frenéticas agendas pessoais. Claro que há, e vai continuar a haver, casamento. Mas casamento que não é mais do que a continuação do namoro por outro meio, não se prescindindo das viagens, das jantaradas com os amigos, dos programas de fim-de-semana e de um rendimento que deve estar sobretudo concentrado na aquisição de bens secundários que exibem sucesso social e, com isso, aumentar a cotação de cada indivíduo no mercado social.

Depois, não menos importante, as alterações quanto à vida sexual. Numa sociedade fechada, sexualmente repressiva e em que o corpo é controlado socialmente, casar seria sempre um modo de poder legitimar algo tão natural como o sexo. E apesar de, exceptuando casos radicais, o sexo não estar exclusivamente associado à reprodução, era em grande parte associada a esta. Claro que sempre existiu o adultério, tanto masculino como feminino (mais legitimado e tolerado o primeiro até "pelo direito ao prazer do homem e as suas necessidades serem diferentes das necessidades das senhoras"), mas como situação marginal e errática face a uma institucional normalidade familiar. Isso também acabou em resultado de relações "líquidas" que duram enquanto dura a felicidade, a qual não apenas não carece de filhos como até os vê como obstáculo a essa felicidade e liberdade sexual. Ora, tudo isto reflecte a posição do indivíduo, não do homem ou da mulher. E assim vamos alegremente caminhando para o nosso suicídio colectivo. A única coisa boa é que diminuindo a população, diminuirá também a probabilidade de existirem feministas tontas.