26 junho, 2019

Há pessoas cujo gosto a vestir, a decorar ou a decorarem-se não poderia ser pior. Um fenómeno mental que sempre me fascinou e inquietou. Já tentei várias vezes olhar para as suas roupas, unhas pintadas ou brincos, ou ainda para os bibelôs, candeeiros e sofás que compram como se fossem as coisas mais bonitas do mundo, mas desisto. Não consigo. Pronto, não consigo, é como tentar pôr-me na mente de um morcego. O que há na mente de um morcego para além de tudo aquilo que cientificamente sabemos existir? Não sabemos. Podemos fazer complexos exames radiológicos como emissão de positrões ou coisa do género, mas ainda assim se torna difícil saber, como diria um conhecido filósofo neste texto, o que é ser um morcego. Poderíamos também deitar uma dessas pessoas durante uma semana inteira no mais sofisticado laboratório para observarmos as suas mentes e ficaríamos a chuchar no dedo, a não perceber o que as leva a adorar aquela saia, aquela camisa ou livros com capas românticas e cobertas com rendinhas. Apetece-me dizer o que diz Wittgenstein nas Investigações Filosóficas: se um leão fosse capaz de falar nós não seríamos capazes de o compreender. Pronto, essas pessoas falam mas o seu mundo interior é tão inacessível como o de um animal que observamos todos os dias.

Imaginemos agora que vamos explicar a uma dessas pessoas que o seu sentido estético é deplorável. Com que palavras e argumentos o faríamos? Como podemos provar que o vestido e a mobília são desgraçadamente pirosos? Não temos como. O mesmo acontece quando as pessoas tentam discutir sobre assuntos cuja carga subjectiva ou emocional é elevada. Para quê então discutir política, filosofias de vida, problemas morais ou ideológicos como se fôssemos sujeitos neutros? Não somos. As nossas disposições mentais são irredutíveis à arte de bem argumentar ou a raciocínios logicamente imaculados. Nós não desejamos as coisas por termos arranjado justificações para as desejarmos. É o contrário: tentamos arranjar justificações para o que desejamos. Fala-se mas não se compreende porque não há nada para compreender. Partilhamos uma mesma linguagem mas isso só vai aumentar ainda mais o poder da ilusão e das aparências, levando-nos a acreditar que partilhamos códigos. A partir daqui não há nada para argumentar e explicar. Resta apenas o bom senso de aprendermos a viver com as nossas divergências, respeitando ideias contrárias (desde que não ameacem as ideias dos outros), zangando-nos o menos possível uns com os outros. Vá, podemos não gostar dos gostos de uma pessoa mas isso não nos impede de passarmos um bom bocado diante de umas imperiais e uns pires de tremoços.