25 abril, 2019



Se percebo logo que esta imagem não é de uma comemoração benfiquista no Marquês mas do dia 25 de Abril de 1974 para comemorar uma revolução, é graças aos cabelos e ao vestuário. Vem isto a propósito de se dizer neste artigo que muitos dos actuais votos na extrema-direita vêm, «paradoxalmente», de votos em partidos socialistas e comunistas. Trata-se de uma verdade empírica que não faz sentido contestar. Apenas contesto tratar-se de um fenómeno «paradoxal». Não é causal, isto é, nenhuma lei obriga votos socialistas e comunistas a esvoaçarem alegremente para a extrema-direita, mas também nada há nele de paradoxal.

Tal acontece devido à própria natureza primária do povo, a qual torna a sua alma volúvel, errática e sujeita a uma radical contingência. A alma do povo é como a alma de um animal: vira-se para quem lhe dá de comer, segurança e estima. Basta ver um cão abandonado e esfomeado na rua a quem damos um pouco de atenção e comida. Em poucos segundo conquistamos um fiel amigo como se tal amizade estivesse já escrita nas estrelas. Com o povo passa-se o mesmo. O povo, como qualquer outra classe de resto, persegue emoções positivas e foge das negativas. Como dirá um clássico filósofo utilitarista, procura o prazer e evita a dor. Essa é uma das razões por que o povo, umas vezes enche o Marquês para festejar as vitórias do Benfica e outras enche  os Aliados para festejar as vitórias do Porto. Tanto o Benfica como o Porto dão aos seus adeptos alegrias, estima e um forte sentimento de identidade, justificando isso tantos comportamentos irracionais.

É verdade que a ligação de um ser humano a um clube é infinitamente mais forte do que a um partido. Hoje vota-se num e amanhã noutro mas nunca se muda de clube, uma relação para toda a vida. O adepto pode perder o interesse pelo futebol, deixar de ver os jogos, não querer saber. Mas não muda de clube. Ora, na política muda-se e muda-se de acordo com a adesão do povo à narrativa ideológica e doutrinária que lhe é vendida e que pode ser mais, ou menos, música para os seus ouvidos, de acordo com o que são as suas necessidades num dado momento histórico. O povo não vota com base num húmus ideológico racionalmente elaborado. Vota emocionalmente movido por um pathos que o torna permeável àquelas palavras que o são apenas de nome pois no fundo não passam de uma melopeia como a que atrai os cães e os gatos, sobretudo os mais carentes.

Provavelmente, algumas daquelas pessoas que estão ali no Marquês, tempos depois já estavam a suspirar por três salazares. Outras, dias depois, andavam com um crachá de Lenine para anos depois estarem a votar em Cavaco, dando-lhe uma maioria absoluta. Claro que tal também aconteceu com as elites mas por razões completamente diferentes, ainda que, nalguns casos, não menos caprichosas. Porque o povo não quer saber de doutrinas, de ideologias, de sistemas, de valores ético-políticos. O que o povo quer é uma casa, pão e vinho sobre a mesa e outras regalias que a evolução histórica, felizmente, lhe trouxe. O que o povo quer sobretudo é festejar no Marquês, estar feliz e contente com a sua vida, vá, com a sua vidinha. A diferença é que enquanto no futebol tal só acontece quando ganha o Benfica, qualquer partido pode fazê-lo sair de casa, desde que seja esse a fazê-lo sentir-se vencedor. Deixemos pois os paradoxos para realidades lógicas e matemáticas. Quando se trata de natureza humana, a negação de uma afirmação não implica qualquer contradição.