26 abril, 2019


Henri Cartier Bresson

Li algures que o bom tempo iria regressar. Um clássico sempre que em Portugal chove dois dias, anunciado como espécie de evangelho meteorológico. Até seria compreensível se fosse no Verão quando os portugueses foram a banhos, mas ficarmos todos felizes e contentes durante o Outono, Inverno ou mesmo Primavera, em ano de seca, é profundamente inquietante. Há tempos, no Ípsilon, António Guerreiro analisou muito bem o fenómeno do "bom tempo", associando-o ao actual predomínio de uma vida urbana completamente alheada do mundo rural. Este, com as suas necessidades, rituais e códigos não passa de uma pitoresca abstracção, sendo por isso a chuva, não uma bênção do céu mas uma enorme chatice que só serve para atrapalhar e aumentar a neura matinal no IC 19 ou na VCI em criaturas já suficientemente flageladas pelos hostis mecanismos da selva urbana.

Mas creio que podemos ir um pouco mais longe. Não se trata apenas de uma consciência urbana mas também de uma consciência infantilizada. O português, para além de cada vez mais cidadão urbano, é um cidadão infantil. Não no sentido do «menino mimado ou satisfeito» de que fala Ortega em A Rebelião das Massas, referindo-se ao homem do século XX. Não, viso mesmo uma consciência infantil tal como é lembrada por Platão numa obra chamada Górgias, no sentido de ser incapaz de distinguir o bem do agradável ou prazer. Daí a criança, se puder optar, para o almoço, entre doces e chocolates ou peixe cozido com brócolos, escolher a primeira opção. É ainda neste sentido que o filósofo considera a cosmética uma adulação da ginástica e a culinária uma adulação da medicina, se pensarmos no que é bom para o corpo. Vejamos o caso da ginástica. Dá trabalho, implica esforço, cansaço e uma rotina que nem sempre é apetecível, mas praticá-la permite manter o corpo saudável sem qualquer tipo de simulacro. O que faz a cosmética, por sua vez, é dar ao corpo um ar saudável mas de um modo aparente. Depois de meia hora ao espelho a maquilhar-se, uma pessoa pode gostar de se ver e dar aos outros o prazer de a verem. Isso, porém, não anula o facto de poder estar doente, com mau aspecto ou, ainda pior, com o ar de quem esteve 20 minutos a ouvir Cavaco Silva.

Passa-se o mesmo com o português que, em ano de seca, após dois ou três dias de céu cinzento e de uns pífios aguaceiros, acorda radiante por estar calor, céu azul e um sol radioso. Tal como o diabético o sabe em relação aos doces, o hipertenso em relação ao sal ou um condutor radical em relação a conduzir a 100 km/hora numa estrada estreita e cheia de curvas, também o português sabe que mais um dia sem chover é dramático em tempo de seca.  Ainda assim, atreve-se a dizer que «finalmente voltou o bom tempo» ou que «está um dia espectacular». Ora, isto revela uma tremenda falta de maturidade, a maturidade própria de um adulto que por vezes é obrigado a reconhecer que bem e prazer não têm de coincidir ou que até se podem anular. O português é incapaz de ver o que é «bom» ou «mau» para além da experiência imediata do que lhe dá prazer ou desprazer. Está certo de que não precisamos de ser aqueles protestantes chatos e angustiados dos filmes de Bergman e Dreyer, que certamente terão níveis muito baixos de Vitamina D por falta de sol ao longo do ano. Mas, caramba, também não precisávamos de exagerar.