11 fevereiro, 2019


Os meus pais tiveram três carros, todos eles brancos. Para mim eram apenas carros que por acaso eram brancos e sempre olhei para carros brancos enquanto carros simplesmente brancos. Um dia alguém me disse que os carros brancos lembram electrodomésticos. Foi um clique. Desde então, sempre que olho com mais atenção para um carro, apercebendo-me de que é branco, passei a ver um carro que parece um electrodoméstico, e quanto maior e mais volume tiver, mais electrodoméstico me parece. Mostrei vários quadros de Vermeer numa sala de aula. Para a esmagadora maioria dos alunos não são mais do que quadros nos quais se vêem homens e mulheres a fazer diversas coisas como escrever cartas, tocar instrumentos ou conversar. O que falta ali é também e tão só um clique que permita ver uma obra de arte, e que obra de arte, onde antes apenas havia homens e mulheres em salas a fazer diversas coisas. Consegui-lo, chamará para o campo da arte e da sensibilidade estética quem, até aí, via só com os olhos, tal como eu também já tive um tempo em que os carros brancos eram só carros brancos por ser apenas com os olhos que olhava para eles.