02 janeiro, 2019

DOIS MIL E DEZANOVES

Ficou célebre e causou polémica aquela frase da senhora Thatcher em que nega a existência da sociedade, pois só os indivíduos existem. A frase em si nada tem que justifique tamanha celebridade. Trata-se de uma vexata quaestio que já vem dos gregos, que depois vem animar bastante as universidades medievais (o romance de Umberto Eco, O Nome da Rosa, passa por aí) e que ainda faz parte do cardápio filosófico contemporâneo. 

Já a polémica fará mais sentido devido ao veneno político e ideológico que da frase emana. Mas dá para entender a ideia, a qual consiste em duvidar que o todo existe anteriormente às suas partes, sendo apenas estas consideradas reais. Ora, levar a frase a sério, impede, por exemplo, um professor dizer, numa aula, que a turma não existe mas apenas 30 alunos à sua frente, que não existe uma equipa chamada Benfica mas 11 jogadores ou que os próprios Beatles nunca existiram, apenas quatro músicos chamados McCartney, Lennon, Harrison e Ringo. Percebe-se assim que levar a frase a sério trará problemas à nossa habitual forma de pensar e perceber a realidade com que lidamos diariamente. Onde já me parece haver alguma razão para a desconfiança thatcheriana face à abstracção do todo, é quando no final de cada ano se deseja um "bom ano". Ora, se há coisa que não tem qualquer significado é precisamente um "bom ano". A parte boa é que um "mau ano" também não. 

Um ano tem 365 dias. Pois, é muito dia. Como pode assim haver um bom ou mau ano? Pode-se ter um bom ou mau dia ou mesmo, vá, uma boa ou má semana. Já um mês bom ou mau é coisa difícil de conceber mas é quando se chega ao bom ou mau ano que os circuitos entopem. Vejamos uma pessoa que esteve desempregada durante bastante tempo e que em Janeiro de 2019 consegue um emprego a ganhar muito bem e com o qual se sentirá bastante realizada profissionalmente. Depois, fará montes de coisas ao  longo do ano que lhe darão imenso prazer. Só que no dia 20 de Dezembro é gravemente atropelada por um tipo todo contente a falar ao telemóvel, morrendo depois de três dias de grande sofrimento. Questão: 2019 foi um bom ou mau para esta pessoa? Sim, fez muita coisa boa durante o ano, mas pode-se considerar "bom ano" aquele em que a pessoa morreu, considerando que morrer não é propriamente uma coisa agradável, sobretudo quando se desejaria continuar a viver por muitos mais e bons anos? E o mesmo é válido para o contrário: uma pessoa que andou grande parte do ano aos caídos mas que em Novembro ganha o Euromilhões, graças ao qual passará a fazer montes de coisas que lhe darão imenso prazer e que passado uma semana tem a bater-lhe à porta 874 candidatos a serem o homem ou a mulher da sua vida. De novo a questão: esta pessoa teve um bom ou mau 2019?

Claro que o ano existe enquanto realidade astronómica. Só que, como muito bem sabe Don Fabricio, astrónomo amador em O Leopardo, os ciclos astronómicos pouco têm que ver com a espuma dos 365 dias que preenchem o nosso bem terreno calendário. A espuma que se forma na areia quando a onda morre já entretanto desapareceu quando chega a segunda onda. Isso, sim, é a realidade, a realidade dos dias bons e maus ou do próprio dia que pode ter momentos bons ou maus. Daí que, de certeza absoluta, venhamos a ter vários 2019. O dos dias bons, o dos dias maus, o dos dias nem bons nem maus, e tudo isso devido às mais diversas razões. Ainda assim, dá para perceber a bondade de quem, por ser mais simples, deseja um bom ano aos outros. A mesma razão que me leva também a desejar um bom ano a quem passar por aqui.