05 dezembro, 2018

Ninguém sai de casa com a intenção de se entregar à tristeza mas pode-se sair de casa com a clara intenção de se entregar à melancolia. A tristeza não se procura, evita-se, foge-se dela, havendo uma razão para se estar triste. Mas se virmos bem faz todo o sentido procurar, activamente, a melancolia. A melancolia não tem de ter uma causa o que faz toda a diferença face à tristeza, apesar de serem sentimentos vizinhos. A melancolia é uma espécie de tristeza mas uma tristeza evanescente, uma tristeza vaga e indolor, faltando-lhe a intensidade dramática da tristeza propriamente dita. Estar melancólico é um estar triste sem tristeza, daí a suavidade poder ser intencionalmente procurada, porque, sendo uma tristeza sem conteúdo, atenua o peso desta, tornando-se numa espécie de tristeza amiga quando não é possível estar alegre.

A melancolia, enquanto exercício espontâneo da alma, joga muitas vezes com uma esteticização da tristeza através de elementos exteriores: paisagens, ambientes, meteorologia, objectos, silêncios. Graças à transferência de um interior dorido para um exterior indutor de sensações agradáveis, é possível uma depuração e, consequentemente, um alívio da tristeza. Em vez de concentrada na sua própria dor, a alma humana sublima essa dor na paisagem, no nevoeiro, na chuva, nas luzes das casas ao anoitecer, nas folhas amarelas espalhadas pelo chão, no vazio do deserto ou de um mar infinito. E assim, o que antes era dor passa a ser vivido de um modo contemplativo, em que o sujeito triste passa a ser um espectador da sua tristeza exposta em diversos palcos do mundo. A alma continua triste mas passa a ver a tristeza do lado de fora. E o que antes eram chagas, lágrimas e esgares de dor transforma-se num sereno silêncio no qual já só vagamente se pressente os tristes dias passados.