09 setembro, 2018

PASSA POR MIM EM COPACABANA


Causou indignação um recente concerto rock numa igreja durante o festival de música "Bons Sons", estando ainda fresca uma outra por causa de um espectáculo de dança pouco ortodoxo numa igreja de Leiria. Não sendo católico, nada tenho a dizer sobre o que se pode ou não fazer dentro de um espaço privado. O mesmo não acontece com a cada vez mais saturada ocupação de ruas e praças das principais cidades para tocar e cantar, enquanto espaço público que é de todos.

Estar na Piazza Maggiore de Bolonha é estar no coração do Renascimento. Imagine-se chegarem ali três fedelhos, hip-hopers da cabeça aos pés, com um leitor de cd's ligado a uma coluna da qual era expelida uma cacofonia que enchia toda a praça enquanto iam coreografando uns gestos que fazem descer a humanidade a um nível simiesco. Como se este filme de terror não bastasse, de imediato se juntaram dezenas de turistas, fotografando e filmando com os telemóveis, felizes e contentes com tão grandioso evento cultural. Deverá tal ser permitido, respeitando-se a liberdade das pessoas num espaço público que é de todos? Não. E não, pela mesma razão que não faz sentido construir um edifício moderno numa zona histórica ou, por muita qualidade artística que possa ter, uma pintura mural na parte lateral de uma catedral ou num palácio renascentista, uma vez que destrói a identidade histórica e cultural de uma zona ou de um edifício.

É verdade que a música não se vê mas a sua presença é invasiva, passando a fazer parte da textura de um lugar, tal como os objectos ou os cheiros. Não que se deva impedir a animação musical por si só em espaços que são hoje turísticos e de lazer. A Royal Mille é a rua mais bonita de Edimburgo, uma rua cheia de história, ligando o castelo ao palácio de Holyrood. Ver, numa longa rua, duas ou três pessoas a tocar gaita de foles, dá à rua uma atmosfera verdadeiramente escocesa. Claro que não é necessário andar por uma cidade ouvindo música ambiente como se de um restaurante se tratasse. Porém, neste caso, para além de não se tornar invasivo uma vez que se trata de música acústica, está bem integrada no ambiente urbano, em perfeita harmonia com a sua identidade histórica e cultural. Se naquela praça de Bolonha um grupo de músicos tocasse música antiga aconteceria o mesmo, enriquecendo a experiência cultural ou mesmo turística (sim, turística) do lugar. Andar numa rua de Alfama e dar com duas pessoas a tocar guitarra e outra a cantar fado está acusticamente para a zona como uma casa branca com roupa estendida, estando eu à vontade para o dizer uma vez que não aprecio fado. Lisboa não é Milão, nem Portugal tem tradição operática, mas ouvir alguém cantar árias de ópera não destoa num bairro que tem o S. Carlos como espaço relevante para a sua identidade cultural. O que já não acontece, por exemplo, quando em pleno Chiado ou Alfama se é obrigado a ouvir música que nada tem que ver essas zonas tão marcadas social e culturalmente. Poderão fazê-lo, sem dúvida, e desde que acusticamente, em não-lugares como estações de metro ou em zonas sem valor histórico ou cultural mas onde também passa muita gente para ouvir.

Se fosse eu quem mandasse, para tocar ou cantar numa zona culturalmente sensível, só com aprovação camarária, após avaliação por parte da vereação da cultura com base em critérios técnicos  e estéticos bem definidos, tal como acontece com elementos arquitectónicos. Não aprovar não significa censurar ou impedir as pessoas  de usar o espaço público para exibir os seus dotes artísticos e ter algum proveito financeiro com eles. Apenas proteger os lugares de pessoas que, por mero interesse individual a eles se desejam sobrepor, destruindo a sua identidade. Ouvir bossa nova, ainda para mais electrificada, tomando um café ao lado de Pessoa ou Neil Young em plena Alfama é, como um gás traiçoeiro, um modo sorrateiro de intoxicar uma cidade.