12 julho, 2018

Uma coisa que me incomoda é, numa exposição temporária, só poder ver um quadro importante pertencente a uma colecção privada sem um espaço museológico que o torne acessível a toda a gente, graças à boa vontade do proprietário que o emprestou. Sim, é um privilégio estar a vê-lo mas também sabendo que se trata de uma condição excepcional e que terminada a exposição nunca mais irei pôr-lhe a vista em cima. Não se trata de reconhecer qualquer ilegitimidade quanto à sua posse. Se a pessoa o comprou é porque alguém o vendeu e longe de mim pôr em causa a transacção.

Aqui há uns anos, no Q&A do The Guardian, perguntaram ao Bryan Ferry qual era, exceptuando propriedades, a coisa mais cara que possuía. Era uma obra de arte mas afirmou logo de seguida que não lhe pertencia verdadeiramente, tendo apenas a tarefa de a conservar para a geração seguinte. Está bem, abelha! Devia estar a pensar nos filhos e nos amigos dos filhos que vão lá a casa. Vamos supor que, para facturar numa situação de grande crise, o Estado venderia à Madonna e ao George Clooney os palácios da Pena e de Queluz, para suas residências privadas. É inconcebível? É. Mas também é bom não esquecer que foram construídos precisamente para serem residências privadas, às quais só tinham acesso os moradores e seus convidados. No fundo, se vendidos agora, voltariam a encontrar a sua natureza, com os seus quartos, salas, cozinhas e jardins privados. Acontece que, por serem de interesse público, qualquer pessoa ganhou o direito de lá entrar. Perder esse direito seria perder o direito a um património que é de todos porque do interesse de todos ainda que não seja de todos.

O mesmo se passa com as obras de arte de colecção privadas. Mal descubro num livro ou na Internet uma obra que me interessa, vou ver o sítio onde se encontra. Vejo então que faz parte de uma colecção privada à qual o público não tem acesso e sinto-me verdadeiramente alienado. O mesmo pintor tem quadros que podem ser vistos por todos e quadros que só podem ser vistos por quem o seu proprietário quer que sejam vistos. Raios, não é justo, por muito legítimo que seja. Com pena minha, não conto ver a colecção do Isabella Stewart Gardner. Mas o facto de saber que as suas obras estão acessíveis ao comum dos mortais, deixa-me apaziguado. Não vou mas sei que posso ir. Em sentido contrário, saber que em Portugal pode haver quem compre um quadro de enorme valor para o ter pendurado na sala, deixa-me com a sensação de me estarem a tirar algo que me pertence, não achando grande piada a esse bombom dado à criancinha para acalmar a birra, que é um dia poder vê-lo no caso de existir uma exposição temporária para a qual generosamente será emprestado.