25 julho, 2018



Se eu seleccionasse aleatoriamente cem pessoas, dando um euro às que conseguissem identificar o homem desta fotografia, o meu prejuízo iria ser bem pequeno ou mesmo nenhum. E se em vez de mostrar a fotografia simplesmente perguntasse quem foi Romain Rolland, exercício teoricamente mais acessível? Apostaria um jantar em como o prejuízo não iria ser muito diferente. Porém, trata-se de um escritor cuja importância foi enorme na primeira metade do século passado, prémio Nobel da Literatura, sobretudo pelo seu Jean-Christophe, um Bildungsroman composto por 10 volumes, escrito nos primeiros anos do século, e que seria facilmente encontrado nas estantes de uma geração, entretanto, desaparecida. Num livro de memórias, O Passado Remoto, o escritor italiano Giovanni Papini recorda o seu encontro com Romain Rolland em Florença:

Estava numa pequena pensão do Lungarno Acciaioli, perto da ponte Vecchio, e fui dar com um homem bastante diferente daquilo que imaginara. Nunca chegara a ver nenhum retrato seu e, como muitas vezes acontece, compusera-lhe uma imagem imaginária através da do seu «herói», através de Jean Christophe. Percebi logo, assim que o vi, que me tinha enganado. Rolland teria, por aquele tempo, uns cinquenta anos, mas o seu aspecto era cavalheiresco, quase delicado, como a de um jovem de trinta. Tinha uma testa alta e bonita, que o seu cabelo pouco abundante mais ampliava, um belo rosto oval, dois olhos de «pensador» sentimental e um bigodinho fino, por cima de uma boca pequena, um tanto feminina. Imaginara por forma completamente diferente o poeta do tempestuoso Jean Christophe. Em vez de um titã encolerizado e selvagem, encontrava-me diante de um amável e cortês exemplar do homme de lettres, não tanto de um epígono do Sturm und Drang, quanto de um normalien distinto e estudioso.

Papini faz depois algumas referências à sua longa conversa, durante a qual o escritor francês explicou a sua visão de uma civilização espiritual europeia. Não vou citar nada a esse respeito pois o que me importa aqui é só mesmo o homem e escritor e não as suas ideias, as quais valem o que valem e, no seu caso, até podem valer bastante. Achei muito interessante o modo como nesta descrição, Papini junta o lado físico do escritor à sua natureza intelectual. Mas antes de prosseguir apenas um pequeno mas creio que oportuno parêntesis: há muito tempo que tenho guardada esta fotografia. Não fui, pois, por mera curiosidade, à procura do aspecto físico do escritor por causa do texto de Papini. O texto fez-me apenas lembrar o facto de ter a fotografia e porquê.

E porquê? Não foi ser a imagem antiga de um escritor. O escritor como homem é tão antigo como outro e interessante homem qualquer, como por exemplo, entre tantos outros, os homens e mulheres de August Sander. Foi sobretudo por ser a imagem de um escritor com um tipo de gravitas «institucional», intelectual e cultural que já não existe. Onde pretende chegar Papini quando refere o «cortês exemplar do homme de lettres»  ou o «normalien distinto e estudioso»? Refere-se ao típico escritor do romain-fleuve mas muito mais do que isso: o escritor que não se limita a contar uma história mas o escritor que constrói um vasto conhecimento do mundo sobre o qual vai depois pensar e muitas vezes intervir, reflectindo-se não só na sua obra como escritor mas também como intelectual ou mesmo como maître à penser. Claro que, em sentido lato, e ao contrário de um agricultor, de um vendedor de electrodomésticos ou de um contabilista, alguém que escreve livros é um intelectual. Mas não no sentido em que são intelectuais, não só Romain Rolland, mas escritores como Balzac, Herculano, Zola, Tolstoi, Eça, Martin du Gard, Musil, Zweig, Mann, Sartre, Beauvoir, T.S. Eliot, Malraux, Magris, Saramago, ou mesmo Miguéis ou Sena. Escritores com os quais se lê o mundo através de um prisma que conjuga elementos históricos, políticos, sociais, psicológicos, que ultrapassam em muito a simples narrativa do romance. Escritores que fizeram parte de movimentos ou tertúlias reunidas em cafés e restaurantes por essa Europa fora que assinaram manifestos, que viajaram (embora não necessariamente, como é o caso de Proust) não só para proveito pessoal mas também como políticos, filósofos, historiadores ou sociólogos em busca de fermento para fazer crescer os seus romances muito para além das suas personagens, ou antes, para dar mundo às suas personagens ou permitir às suas personagens encontrar um mundo.

Ser escritor, hoje, é cada vez mais alguém que apenas escreve livros. Não há nada de errado nisto. Há muitos e bons livros que merecem ser lidos por escritores de que gosto muito e merecem os maiores encómios. Mas escritores cuja força interventiva se esgota nos seus livros, os quais, mais do que ajudar a expor o mundo perante os nossos olhos, reflectem sobretudo o mundo pessoal do escritor ou da pessoa por trás do escritor. Mesmo escrever um romance histórico com 700 páginas, que terá certamente muito de investigação e conhecimento histórico, não faz do escritor o homme de lettres ou o distinto normalien a que se refere Papini, uma vez que o conhecimento histórico do escritor se esgota no próprio romance, tendo um carácter sobretudo funcional e não de transcendência face ao romance.

E não deixa de ser aflitivo assistir, desde o sofá, à azáfama comercial, à correria de tanto escritor que mais parece delegado de propaganda médica, de festival em festival, de congresso em congresso, de feira em feira, de apresentação de livro em apresentação livro, de entrevista em entrevista, sobretudo para dar a conhecer os seus livros. Também não tem nada de errado nisso. Quem não é conhecido não vende e um escritor quer ser vendido e lido e a muito editor basta que seja vendido. Também não tem nada de errado nisso. Escrever e vender  livros é uma actividade comercial tão legítima como outra qualquer e não foi o facto de também o fazer que retira a Camilo o estatuto de enormíssimo escritor. Mas confesso a minha melancólica frustração por haver cada vez menos escritores com o conhecimento, a sabedoria, a inteligência geral e, não menos importante, a intervenção cívica, tendo por trás o superior ethos literário de um Romain Rolland sentado a ler o jornal num luminoso café europeu.