27 julho, 2018


Mete tanta impressão ver aqui Vladimir Ilitch Ulianov como qualquer outra pessoa na mesma situação, ainda para mais tratando-se de um homem com cinquenta e picos. Mas a impressão é maior se associarmos a este homem uma vida cheia enquanto agitador, exilado orador, político, filósofo, diria mesmo uma das mais influentes figuras do século XX que a ele ficou muito a dever. Entretanto, se me lembrei desta fotografia, não foi para assinalar a fragilidade inerente a todo o ser humano mas por uma bem mais comezinha razão: o anteprojecto de reforma constitucional em Cuba no qual se elimina a palavra "comunismo". E lembrei-me para lamentar não podermos ver a vitalidade ou decrepitude das ideias tal como a vemos dos corpos, como é o caso do corpo de Lenine nesta fotografia e vinte anos antes.

Este lamento levou-me a recuar até 1907, à cidade de Londres, onde se encontram Estaline, Lenine, Trotski e Gorki para o congresso do POSDR. Talvez por já ter visto tantos filmes e séries inglesas de época, consigo imaginar estes russos exilados a passear pelas ruas de Londres, observando a cidade e fazendo comentários sobre o que vêem. E o que vêem é naturalmente uma sociedade bem diferente daquela ideal com que sonham, cheia de imperfeições e, politicamente, um regime parlamentar burguês que serve os interesses das classes exploradoras que desejam aniquilar para dar origem a uma bem mais justa ditadura do proletariado onde todos serão iguais. Quem tem paciência e tolerância para a imperfeição quando, no horizonte, se avista a perfeição e o ideal? Uma perfeição que, dez anos depois, fez os triunfantes bolcheviques arregaçarem as mangas para a construir nos seus ateliers de engenheiros sociais e políticos onde efervesciam o que pareciam ser ideias jovens e revolucionárias.

Mas cá está o problema de não se conseguir perceber funções vitais e orgânicas já velhas em ideias que parecem frescas como alfaces acabadas de colher. No caso do comunismo, uma anquilosada ideologia cuja biografia se resume em poucas palavras: nasceu no século XIX, cresceu ao longo do século XX para, na parte final deste, ficar no estado em que se encontra aqui Vladimir Ilitch Ulianov, mas já decrépita e condenada à nascença, como muitas pessoas sensatas conseguiram antever. Pudessem as ideias ser vistas e não apenas pensadas e, apesar de tal não demover alguns fanáticos e intrépidos visionários ou oportunistas, talvez se tivessem evitado tantos milhões de pessoas mortas à fome ou assassinadas, tantos milhões de pessoas cujas sociedades foram marcadas pela pobreza, perseguições, ausência de liberdade, tudo isso enquanto castas burocráticas iam vivendo com grande conforto burguês ou mesmo satisfazendo caprichos que nunca passariam pela cabeça dos mais excêntricos políticos ocidentais. Saudemos o povo cubano que finalmente se viu livre deste pesadelo constitucional, fazendo votos para que, a pouco e pouco, e por tentativa e erro, vão desenhando uma sociedade com as imperfeições que, espero, nunca venhamos a prescindir.