31 julho, 2018

José Sócrates enquanto jovem estudante de engenharia

Cada pessoa tem direito às suas obsessões e eu, filho de Deus como os outros, tenho direito às minhas. Há muito que uma das minhas maiores obsessões é o engenheiro José Sócrates. Sei que é terrível mas trata-se de uma compulsão que o meu livre-arbítrio não consegue resolver. Tivesse-me saído na rifa a Monica Bellucci, a Isabelle Huppert, a Kathia Buniatishvili ou mesmo, vá, e isto já é o desespero a falar, a Cristina Ferreira, e adormeceria mais apaziguado antes de me ser tirada a energia vital durante a noite após a sua sucúbica passagem. Mas não, havia-me de calhar o engenheiro, personagem com a qual, graças a Deus, nunca sonho, mas que vai não vai me invade os pensamentos ao longo dos dias. Fosse eu um Balzac, um Stendhal, um Dostoievski, um James, um  Proust, um Musil, um Thomas Harris ou uma Patricia Highsmith, e, para exorcizar o daimon  que me assombra, escreveria o meu roman à clef cuja acção, para manter as distâncias, não poderia ter o seu início em Vilar de Maçada mas numa qualquer terreola inventada neste país de tantas oportunidades perdidas mas de tantas outras ganhas. Mas escritor não sou, restando-me apenas aprender a suportar o resto dos meus dias com se de um castigo divino se tratasse para expiar uma qualquer merecida ou imerecida culpa, sei lá.

Mas de uma coisa podemos dar graças e sirvo-me deste raro e preciosíssimo retrato do engenheiro enquanto jovem, que consegui descobrir. Qualquer arguto psicólogo que analise bem este rosto, o seu visionário e messiânico olhar, a sua fria e determinada expressão, só pode chegar a uma conclusão: a humanidade deve respirar de alívio por ter querido o destino que o engenheiro ascendesse aos mais elevados desígnios políticos, num cantinho de uma Europa democrática, aberta e liberal, num Estado de direito no qual, apesar de tudo o que sabemos e não sabemos, as instituições ainda vão funcionando. Claro que alguém teria de sofrer as consequências deste natalício destino e calhou a nós, portugueses, sermos as vítimas, podendo espanhóis, franceses, ingleses, belgas e tantos outros respirar de alívio. 

Há gente na história que fez muito mal porque as condições o permitiram como há muita gente que não o fez porque as condições foram outras. Dizia Lincoln que para conhecermos o carácter de uma pessoa basta dar-lhe poder. O que não falta por aí são pessoas terríveis. Só que em vez de terem ocupado tronos ou palácios ministeriais em regimes autoritários, expressam todo o seu carácter nos aspectos mais comezinhos da vida quotidiana e doméstica que se esgota ali. Imaginemos o seguinte e terrível cenário: o engenheiro, sendo, aliás, o conceito de engenheiro tão caro nesse contexto social e político, em vez de chegar ao poder em Portugal no século XXI, teria chegado na Rússia dos Sovietes, já sem a força real ou simbólica de um Lenine para refrigerar as mais inconfessáveis pulsões, embora este também não fosse propriamente dado a sentimentos franciscanos com quem não partilhasse os seus elevados e, salvo sejam, nobres objectivos. Nós, portugueses, sabemos do que o engenheiro é capaz e um bom psicólogo clínico saberá melhor do que ninguém explicar por que é o engenheiro capaz. O que nunca iremos saber é do que o engenheiro seria capaz, no caso de ter a sua oportunidade histórica para fazer tudo o que fosse capaz. Não sabemos mas podemos imaginar com a mesma clarividente visão das bruxas de Macbeth.