14 julho, 2018

Há um pequeno ensaio de I. Berlin, chamado Political Judgement cujas principais questões são: o que significa uma sabedoria política? Ou ser politicamente competente? Há uma «ciência política» tal como há uma Biologia ou uma Química? Será que, na realidade política, existem leis, invariáveis, mecanismos inexoráveis e previsíveis, permeáveis ao exercício da razão? A sua resposta é veemente: não!

É por isso que, sendo ele herdeiro de um certo iluminismo, arrasa por completo a pretensão de reduzir tudo ao poder da razão. Pior ainda: aplicar tais pretensões. Lenine, Estaline, Hitler, Mao, Ceausescu, Chavez são homens que quiseram fazer política com uma doutrina colocada na mesinha de cabeceira. Homens que olharam para as suas sociedades e não viram outra coisa senão um laboratório onde poderiam aplicar o seu programa, a sua agenda racional. Para Berlin, os grandes pesadelos políticos do século XX, embora por razões distintas, continuam a ser herdeiros da fé iluminista segundo a qual é possível construir uma sociedade a partir de um modelo racionalmente elaborado no ateliê científico do político enquanto sábio ou vidente iluminado, deslumbrado com os seus ideais.

Ora, a realidade não é assim. A realidade, a verdadeira realidade é multicolor, evanescente, contraditória, fugidia e demasiado feita de misturas para poder ser catalogada como as borboletas. Daí Berlin preferir políticos como Colbert, Washington, Talleyrand, Disraeli, Bismarck, Churchill ou Roosevelt. Homens que, mais do que matemáticos ou engenheiros da política, olharam para esta através da intuição, do improviso, de uma sabedoria prática e não doutrinária. É por isso também, considera, que romancistas de águas profundas como Tolstói ou Proust, estando atentos às pequenas partículas atómicas do real, ao invisível, aos caprichos da alma, entendem muito melhor a realidade do que fanáticos racionalistas como Holbach, Helvétius ou La Mettrie, três dos principais inspiradores da revolução da qual hoje se comemora o aniversário. Infelizmente, as críticas de Berlin, continuam actuais. É que há muito robespierrezinho escondido em muitos dos nossos engenheiros sociais, e se é verdade que já não se cortam cabeças por fora, existem diversas maneiras de as cortar por dentro.