19 julho, 2018

Devido a uma apocalíptica catástrofe, em poucos minutos Portugal vai ficar submerso. Eu tenho a possibilidade de seleccionar 20 figuras públicas que irão ser salvas dentro de um bote, as quais irão mais tarde refazer o país. Sem qualquer ponta de idolatria ou hagiográfica veneração, uma dessas figuras seria a procuradora Maria José Morgado. Há pessoas de quem gostamos, que respeitamos ou em quem temos confiança, ou não, apesar de não as conhecermos ou de termos delas apenas um vago e distante conhecimento. Embora seja deste tipo o meu conhecimento dela, Maria José Morgado é uma mulher de quem gosto, que respeito e em quem tenho confiança, num nível muito acima da média. Por isso resolvi ler a sua entrevista no PÚBLICO de hoje.

Lembrando o tempo em que resolveu deixar de ser revolucionária, fala de uma certa ressaca pelo vazio que foi encontrar após tanta adrenalina descarregada. Que depois foi combatida lendo e estudando bastante mas também com exercício físico intenso. Eu achei graça a esta resposta pois vai ao encontro de uma ideia que considero bastante verosímil: grande parte do que somos, mas também do que não somos, deve-se a uma questão energética. No romance A Amiga Genial, diz Elena: "[...] fiz muitas coisas na vida mas sem convicção, sempre me senti um bocado desligada das minhas acções". Cá está, havia em Elena um défice energético que marcou uma distância entre si e si. Outras pessoas estão completamente mergulhadas no que fazem e no que são -  ou melhor, são o que fazem ou fazem o que são - sem qualquer tipo de dúvidas ou mediação introspectiva. Serão assim os revolucionários mas também não revolucionários nas mais diversas funções, seja no mundo político, empresarial, militar ou mesmo pessoal. Há pessoas que parecem estar sempre ligadas à corrente, verdadeiras máquinas de agir, para as quais o tempo interior quase não existe. Se os fins de toda essa tensão energética forem uns, o mundo só terá a ganhar, se forem outros, terá a perder, noutros casos ainda - a maioria - nem uma coisa nem outra. Pelo que se pode depreender da entrevista, Maria José Morgado encontrou o equilíbrio certo entre a energia necessária para o mundo e a falta dela para as coisas onde o seu excesso se torna prejudicial, seja para o mundo, seja para si próprio. Bendito exercício físico intenso que ajudou a curar a ressaca.