21 julho, 2018

AUGUST STRINDBERG - A CIDADE [1903]


Publicado em 1819, o "O Mundo como Vontade e Representação" viria a ser uma obra seminal para um certo século XIX. Sim, há o século XIX optimista, de Marx, de Morris, do casal Webb, de Mill, de Fourier, o das revoluções liberais, do socialismo, do anarquismo, da "Comuna de Paris" e de uma Paris com os seus novos boulevards rasgados pelo barão Haussmann, do nascimento de repúblicas e da glorificação do Estado-Nação, de uma exploração erudita dos folclores nacionais, do orgulho colonial, de uma crescente industrialização, do materialismo, positivismo e cientismo. Mas também há o século XIX do desespero romântico, do suicídio estético, do niilismo, do irracional, de um melancólico bucolismo, do spleen baudelairiano, do absinto, de Dostoievski ou Lautréamont, da arte pela arte cultivada pelo artista na solidão do seu sótão, enfim, da rapariga de Manet ao balcão das Folies-Bergère ou das evanescentes ninfas pré-rafaelitas. Sim, discute-se e conspira-se nos cafés, salões e fábricas mas o seu ruído não chega aos ouvidos do caminhante sobre o mar de névoa de Caspar David Friederich ou dos ouvidos  de Luís II, submerso num wagneriano oceano musical durante os seus passeios de cavalo à volta de Neuschwanstein e cuja romântica nascente se encontra em Bayreuth.

Nessa obra de 1819, é o jovem Nietzsche que o lembra anos, mais tarde, em A Origem da Tragédia, Arthur Schopenhauer sugere a imagem de um indivíduo tranquilamente sentado no seu pequeno bote, não tendo a consciência da (sublime, diria Kant) ilimitada imensidão do oceano onde se encontra a navegar. Confia no seu bote e sente-se por isso seguro. Se, porém, o virmos cada vez mais e mais a partir do alto até se tornar um pontinho perdido no meio de um oceano cujos movimentos obscuros ninguém domina, então, aqui sim, iremos perceber a intrínseca fragilidade deste indivíduo indolentemente sentado no seu bote. É nesta terrível imagem de Schopenhauer que não posso deixar de pensar quando vejo esta cidade de Strindberg, talvez Veneza, mas não necessariamente Veneza.

No meio de tanto cinzento, o seu quente brilho atrai-nos como se fôssemos mosquitos em busca de um lugar seguro para repousar. Deve ser bom andar por lá, cada um concentrado na sua realidade particular. Andar pelas suas ruas, canais, atravessar pontes, frequentar, quer burgueses cafés para conversar, ler jornais ou só para ver e ser visto, quer tabernas onde o vinho e o divertimento popular afogam as mágoas de quem nasceu no lado errado da vida, ou simplesmente, brincar, namorar ou simplesmente estar por casa nos seus afazeres domésticos. Como um bote parado em águas, à superfície, tranquilas, estar na cidade é habitar o elemento humano por excelência, a cidade como produto da engenharia, arte e arquitectura, a cidade como pólis, a cidade como conquista do ser humano sobre a natureza ou até sobre si próprio enquanto bruto ciclope perdido na sua bárbara individualidade.

Porém, esta cidade de Strindberg, ainda que orgulhosa com a sua majestática catedral ao centro onde as almas se reconfortam, é uma cidade ameaçada, uma pequena ilha perdida num universo que a ignora. O céu sobre esta cidade, como alguns de El Greco, sobretudo os de Toledo, é um céu atormentado, dramático, onde o obscuro teatro dos elementos conjura, com a cumplicidade do mar, sem que a cidade disso se aperceba. Não é o céu de Munch. Este é feito da mesma angustiada substância de quem vive por baixo dele, enquanto o de Strindberg surge em contraste com a cidade. Com a cidade e com o optimismo não só finissecular mas também dos primeiros anos do novo século que ainda há pouco começou. Paris, Londres, Berlim, Hamburgo, Baden-Baden, Munique, Viena, Budapeste, Bruxelas, Turim, Milão, Basileia, o alegre e vibrante cosmpolitismo da cidade na mais verdadeira acepção da palavra.

Mesmo o atormentado céu de El Greco sobre Toledo é um céu transcendente sobre a cidade para a sugar como um íman, deixando-a à mercê de um poder religioso que está muito acima de quem o tem na Terra, e quem diz na Terra diz na cidade. Nós vemos o Enterro do Conde de Orgaz e percebemos como é fugaz o poder na Terra e a sua insignificância face ao que se ganhou no além. Podemos precisar de algum tempo para lá encontrar o grande e poderoso Filipe II perdido no meio de uma multidão mas é mesmo lá que encontra sua verdadeira glória entre os santos, os anjos e Deus. Pode pois assustar o céu de Toledo mas assusta enquanto mysterium tremendum et fascinans que define o sagrado enquanto tal, impondo o seu respeito a quem nasceu sob o signo da mortalidade. Assusta mas atrai ao mesmo tempo. Este céu de Strindberg sobre a cidade é outra coisa. Uma massa informe que, com o mar, reduz a insignificante e frágil cidade a um poder desconhecido, imprevisível e incontrolável, ainda que os seus habitantes, felizmente para eles, disso não tenham consciência. A cidade pode sentir-se segura sobre os seus alicerces mas há uma embriaguez cósmica cujo hálito derramado sobre ela, como o siroco para os suicidas de Trieste, pode deitar tudo a perder. Foi este céu de Strindberg, e não o de El Greco, que viria a conquistar o século que ainda há pouco começara e muito provavelmente foi sempre este céu que existiu e existirá sobre as cidades tão orgulhosamente construídas pelos seres humanos como sobre as suas ruínas das quais, também com orgulho, são os seres humanos os construtores.