11 julho, 2018

A ESTÉTICA PROTESTANTE E O ESPÍRITO DO INSTAGRAM

Há pessoas que detestam ir ao supermercado. Há pessoas que não detestam ir ao supermercado mas detestam estar na bicha para pagar na caixa. Eu serei um felizardo uma vez que gosto de ir ao supermercado. Em relação a estar na bicha, embora considere haver coisas na vida mais interessantes para fazer, reconheço que é rara a vez em que não haja motivos para uma pequena e instantânea sociologia de supermercado.

Hoje, depois de fazer as minhas compras ali no Modelo, dirigi-me para a bicha para pagar. Estava enorme, obrigando-me a uma estadia maior do que o habitual mas, cá está, aprende-se sempre alguma coisa! Estava lá para aí há 5 minutos quando passam dois homens, mais velhos do que eu, com aquele ar de bom português cuja única condição para emborcar duas ou três minis é parar, tendo um deles, com uma valente bigodaça e um cestinho de plástico na mão dito para o outro: "Eh pá, ganda fila que prá qui tá". O sociólogo que há em mim ganhou logo ali o dia. Em primeiro lugar por ver dois homens que, em tempos, nem de um supermercado se podiam aproximar sob pena de arriscarem a sua masculinidade, andando agora ali às compras com a mesma naturalidade com que comem caracóis e discutem o Sporting numa esplanada ali da avenida.Claro que em 2018  já não se trata de novidade nenhuma mas apreciei invocar o contraste. Agora, surpreendente, mas surpreendente mesmo, foi ver o bigodaças a dizer "fila" em vez de "bicha". Surpreendente e até chocante. Para mim, um homem a sério continua a dizer "bicha". "Fila" tornou-se uma expressão mais feminina ou de homens urbanos obcecados com a elegância, que passaram a considerar a palavra "bicha" rude e boçal. Isso, para mim, não passa de uma traição ao bom, velho e vernacular Português. Ver aquele homem a dizer aquilo foi, pois, uma desilusão, levando-me a pensar que, mais ano, menos ano, a palavra "bicha" está para a nossa língua como tantas outras que, hoje, só conseguimos ler em escritores como Camilo ou Aquilino.

Mas o empírico benefício de estar numa bicha de supermercado não acabou aqui. A demora permitiu-me ainda ler com mais atenção as capas das revistas ali expostas. Foi o caso do número de Verão da revista Women's Health cuja capa aqui trago:



Em abstracto, se pensar numa revista dedicada à saúde, irei pensar em assuntos relacionados com pulmões, fígados, rins, estômagos, pele, olhos, ouvidos e assim. Porém, se também em abstracto pensar numa revista dedicada especificamente à saúde da mulher, a minha mente viajará até ao misterioso mundo da gravidez, da menstruação, da menopausa, da candidíase, da secura vaginal, da infecção urinária, dos quistos nos ovários, dos miomas, das histeroctomias e outras coisas assim do género. Porém, como se pode empiricamente constatar nesta revista dedicada à saúde da mulher, a realidade é bastante diferente. 

Entretanto, podemos considerar que o destaque dado ao rabo de Rita Pereira numa revista dedicada à saúde da mulher não passa de um mero acidente. Mas o sociólogo que há em mim, casmurro, não se pode ficar apenas pelo território da contingência social, devendo ir à procura de padrões e invariáveis. Foi o que fiz. E o que descubro eu na Women's Health de Maio/Junho de 2015? 



Exacto! O rabo de Rita Pereira. Neste caso, para além de como perder 6 quilos, uma barriga firme, comida com poucas calorias, fatos de treinos cool, cabelos à prova de ginásio e corpo de praia, temos a preciosa indicação de que bastam 20 minutos diários para se conseguir um rabo perfeito, o qual, presumo, é o mesmo que dizer o rabo de Rita Pereira. Ora, tudo isto pode parecer algo desfasado da realidade, levando-nos a presumir serem as pessoas desta revista algo taralhocas. Porém, se levarmos a sério este artigo, assim como a obsessão moderna relativamente às selfies do Instagram e do Facebook, seremos obrigados a reconhecer que a saúde feminina está cada vez mais reduzida a um plano, que parecendo obsessivamente físico, não deixa de ser obsessivamente mental. Posso estar enganado mas creio que, por este andar, num futuro próximo, a Cirurgia Estética e a Psiquiatria irão ultrapassar a Ginecologia e a Obstetrícia enquanto especialidades ligadas à saúde da mulher.

A saúde masculina, já por si bem menos complexa do que a feminina, pelos vistos, também