14 junho, 2018

O SENHOR VÍTOR

Hoje passei pelo senhor Vítor e cumprimentei-o dizendo "Bom dia, senhor Vítor". Eu jogava ao berlinde e já o senhor Vítor era senhor Vítor, continuando a sê-lo até hoje e até sempre. Isto para mim é normal, como creio ser normal para o senhor Vítor ser tratado por senhor Vítor. Mas a pessoa que diz isto é a mesma que fica desconfortável quando é cumprimentada na rua por um "Bom dia, senhor professor" ou "Bom dia, senhor doutor". Eu sei que para quem me cumprimenta desta maneira, sou tão senhor ou tão doutor como para mim o senhor Vítor é senhor Vítor e provavelmente nem lhes passa pela cabeça não me tratarem por senhor ou doutor como pela minha também não passa não tratar o senhor Vítor por senhor Vítor.

O passado é o que já não existe, o futuro o que ainda não existe. Mas entre o que deixa de existir e o que ainda não existe, existem momentos que são como a foz de um rio, onde a água já não é doce mas também ainda não é salgada. O poeta Ovídio bem se poderia lembrar de metamorfosear a foz de um rio no deus Janus.  Janus, o deus das duas faces, uma virada para o passado, outra para o futuro. É pois este o meu estado ao tratar o senhor Vítor por senhor Vítor mas sentindo-me desconfortável quando passo eu a ser o senhor, mesmo sabendo ter idade para o ser. O estado de quem é apanhado entre dois tempos, um que ainda existe mas em vias de deixar de existir, outro que já existe mas ainda com vestígios do anterior.

Também é isto que acontece muitas vezes na história. O que normalmente vemos na história são épocas, eras, períodos, revoluções que destroem realidades para para darem lugar a outras: Antes de Cristo/Depois de Cristo, Alta Idade Média/Baixa Idade Média, Monarquia/República, Estado Novo/Democracia, Grécia Antiga, Renascimento, Absolutismo, Revolução Francesa, descolonizações, etc. Mas a história também é feita de vidas materiais e espirituais que se vão desvanecendo sem se dar por elas. Vamos um português de 1875 e facilmente o distinguimos do português de 1926. Mas há muita coisa no primeiro que já prepara o segundo como este tem muita coisa do primeiro. Coisas que aparecem e desaparecem quase sempre como um gás incolor e inodoro que tanto nos invade como se esvai, sem que demos por isso.