11 junho, 2018

O ROSTO E AS MÁSCARAS


Eis um momento descontraído e informal da tomada de posse do novo governo espanhol. Pretendo realçar o facto de estarem todos a rir, ou a sorrir mas, também, ou sobretudo, não o fazerem pelo mesmo motivo. Aquelas pessoas formam uma estrutura visual única, mas disseminadas em diversas partes como ilhas sem contacto entre si. Comecemos pelo lado esquerdo. Temos um grupo cujo centro é o rei onde a animação ou mesmo o espírito de paródia são inequívocos. À sua direita está uma mulher de casaco branco a rir enquanto conversa com outra cujo rosto não vemos. Pela posição do corpo e a direcção do olhar, percebe-se que o motivo por que ri nada tem que ver com o que faz rir o grupo anterior. Depois, mesmo na margem da fotografia, um homem ri, e percebe-se que a sua conversa também decorre sem qualquer ligação com as outras. Termino com o homem e a mulher em primeiro plano. Não estando a rir como os outros, as expressões e posição dos braços denunciam uma clara boa disposição resultante de uma descontraída troca de palavras.

Não se trata de uma mera coincidência. Se estivermos sentados num café, de certeza que iremos observar pessoas com expressões completamente diferentes. Numa mesa veremos pessoas divertidas, noutra mesmo ao lado já veremos outras conversando com ar sério, fazendo de cada mesa uma unidade básica sem qualquer ligação com as outras. Mas não é isso que acontece nas quatro unidades desta imagem. E não acontece por se tratar de uma fase da cerimónia que impele as pessoas para a alegria e descontracção, ao contrário do momento mais formal e solene em que todos devem estar com ar grave e sério. Porém, não há nada escrito que obrigue as pessoas a dizerem piadas ou a puxar assuntos que permitam uma alegre empatia entre si. Por que razão tal acontece?

Há um texto das Notas Contemporâneas, intitulado A Decadência do Riso, no qual Eça lamenta a traição do seu tempo ao famoso mandamento de Rabelais «Riam, riam, porque rir é o que é próprio do homem!». Mostra pois a sua revolta face a um tempo sorumbático cuja melancolia romântica surge em claro contraste com a primaveril alegria renascentista e barroca que, contrariou as «soturnas torres feudais» entretanto «abandonadas às corujas e aos fantasmas». Um tempo em que a humanidade entristeceu, em que se esqueceu da boa gargalhada, em que os filhos são educados a conter o riso porque associado à falta de juízo. Tudo isto por causa da civilização. De uma civilização que, ao contrário do que acontece com o selvagem africano, ainda capaz de rir com saudável energia e espontaneidade, obriga as pessoas à ordem, à regra, a uma seriedade política, social, artística, literária, tornando doloroso o acto de pensar.

Regressasse agora Eça à pátria e facilmente iria perceber o quanto as coisas mudaram. O provérbio segundo o qual mais vale cair em graça do que ser engraçado deu lugar a um facto evidente: é preciso ser engraçado para cair em graça. É muito provável que grande parte dos portugueses nunca tenha ouvido falar de Rabelais mas também não precisam para poderem vestir a sua camisola. O sentido de humor, rir, mostrar alegria, estar feliz e contente deixou de ser um estado reactivo, uma manifestação espontânea perante um dado estímulo particular, para se tornar num padrão de cultura que condiciona a relação com o mundo e com os outros. Hoje, quem não ri é um marginal, um auto-excluído do sistema convencional, alguém que resiste à pressão que impele as pessoas para a descontracção e ligeireza.

Daí o feliz relevo desta fotografia: um insignificante microcosmos mas que revela ao mesmo tempo o mesmo tipo de dinâmica estrutural que submete os indivíduos ao seu poder num contexto social mais vasto. Se um destes indivíduos, em vez de estar a rir ou simplesmente animado e descontraído, estivesse com o mesmo ar grave e sério apresentado no momento mais formal da tomada de posse, isso teria um significado político. Tudo na política são máscaras, sendo aquela uma simples continuação das relações sociais vulgares, apenas com a diferença de ver os seus comportamentos mais sufragados publicamente. Quem disse que o estruturalismo está morto?