06 junho, 2018

Na história de Pigmalião temos o escultor que se apaixona pela estátua feminina que ele próprio criou e que, graças à piedosa Afrodite, se transforma numa mulher verdadeira para felicidade do seu afortunado criador. É interessante comparar esta história com a de Caterina Campodonico (1804-1882), humilde vendedora de nozes de Génova. Apesar da sua pobreza, passou grande parte da vida a poupar dinheiro, não só para vir a ser sepultada na zona mais cara do cemitério de Staglieno, mas também pagar ao escultor que viria a fazer a estátua dela para colocar junto ao túmulo.

É tocante a sensualidade e erotismo com que Ovídio, nas Metamorfoses, descreve a experiência de Pigmalião face ao seu modelo de pedra transformado depois em carne. Já a história de Caterina Campodonico não poderia estar mais nos antípodas da anterior: uma mulher que deixa de se interessar pela vida só para poder conquistar uma marmórea eternidade. De um lado, a estátua que deixa de o ser para viver a sua vida de mulher, do outro, a mulher que se anula para fingir viver uma vida de estátua. Seria agora tentador vir aqui lamentar o facto de ter abdicado de tanta coisa ao longo da vida para se tornar numa estátua depois de morta, enfim, o radical oposto do velho carpe diem. Não vou entrar nesse tipo de moralismo até porque respeito a liberdade da sua decisão.

O que sobretudo me interessa na história de Caterina é o modo como acaba por antecipar o século seguinte, aquele a quem alguém chamou o "século do povo". A humilde vendedora genovesa poderia tornar-se uma espécie de padroeira do homem comum do século XX ou, até mais ainda, do século XXI. Os séculos XX e XXI, devagarinho, de mansinho, viriam a ser aqueles onde as estátuas de grandes figuras, boas ou más, não importa, foram perdendo toda a importância pública e privada. D. João I, Camões, D. José, Marquês do Pombal, Saldanha? Estátuas em cemitérios como em tantos do século XIX? Nada disso tem importância hoje, já ninguém ambiciona a sua estátua fúnebre. O que acontece, sim, e de um modo cada vez mais gritante, e, por que não, dizê-lo, escandaloso, é a pretensão de tantas criaturas, que, ao olharem para si próprias, conseguem ver a importância de uma estátua, quando afinal não passam de gente vulgar, insignificante ou até mesmo, nalguns casos, absolutamente desprezível.