07 junho, 2018

"Muitas das vezes, quando temos muito tempo para pensar, fazemos asneira."
                                                                                            Jorge Andrade, ex-futebolista (daqui)

Acho magnífico, e até comovente, como alguém que fica para a história por ter dado pontapés e cabeçadas numa bola, entende tão facilmente o que não consegue muita gente que expele inteligência e erudição por todos os poros. Para reforçar o nexo causal que surge na frase, tomo a liberdade de a reformular: "É precisamente pelo facto de se pensar em demasia que muitas vezes se faz asneira". Sobretudo a partir do século XVIII, tendo o século XX as suas manchas impossíveis de remover, houve milhões de pessoas que sofreram na pele e no espírito o efeito de profundos e complexos pensamentos saídos de gabinetes cheios de livros, de cafés europeus onde se discutiram ideias sobre como tornar o mundo melhor, de clubes e organizações onde se organizou a passagem à prática de tais pensamentos. Diz-se que quando o sábio aponta para a lua, o louco olha para o dedo. Acontece que nem sempre é assim. Quer dizer, distinguir o sábio do louco.

Michel de Montaigne, presidente de câmara e vitivinicultor numa zona de bons vinhos como é Bordéus, faz, nos seus Ensaios, uma sugestiva distinção entre jardineiros e botânicos, para explicar como os primeiros podem saber cuidar muito melhor das plantas do que os segundos. Noutra parte da obra a distinção é topógrafos e cosmógrafos, neste caso, para mostrar a vantagem de conhecer bem os terrenos por onde se anda em vez de complexas teorias sobre os mesmos. O problema do pensamento é, muitas vezes, a sua liberdade, pior ainda quando entregue a si próprio durante demasiado tempo, mesmo quando a realidade se encarrega delicadamente de o mostrar. Daí que a melhor maneira de pensar seja por cabotagem. Pensamento por cabotagem. De porto em porto, sempre com a costa à vista, pode-se chegar mais longe e melhor do que com aventuras pelo oceano adentro sem conhecer as águas por onde se navega e sem instrumentos de orientação. O mar livre e aberto dá tempo para todo o tipo de pensamentos, reflexões e experimentações mas também quanto mais nele se avança, maior é a profundidade para quem naufraga.