20 junho, 2018

LICHTENSTEIN NO COLOMBO

Meu deus, já faz dezoito anos que resolvi ir a Serralves ver a exposição do Andy Warhol. Eu nunca gostei dele mas, sendo uma pessoa de espírito aberto e que gosta de dar o benefício da dúvida, lá fui com cartesiana prudência, liberto de prévios pensamentos e sentimentos, metendo entre parêntesis tudo que sabia a seu respeito de modo a poder lá chegar com o mais puro e virginal olhar sobre a sua obra. Creio que não resisti quinze ou vinte minutos. O suficiente para dar o meu rico tempo por mal empregue e concluir que não fosse a criatura americana e um produto muito bem vendido, a começar pelo próprio, e estaria reduzido a uma mais do que merecida irrelevância. 

Foi há muito tempo mas lembro-me bem do meu enorme desconforto por estar a ver tudo aquilo no espaço formal de um museu. Eu não tenho nada contra outdoors, as montras da Zara ou os carros comerciais que andam pelas ruas com o logotipo da empresa, mas se eu entrasse num museu para ver outdoors, montras da Zara ou carros comerciais sentir-me-ia a pessoa mais estúpida do mundo em vez de me sentir apenas estúpido. Quero por isso saudar a exposição de 41 obras de Roy Lichtenstein no Colombo, no âmbito de um projecto de divulgação artística.  Se na altura dos saldos passar por lá para fazer umas compras e, no entretanto, ver a exposição, estou certo de que dessa vez não irei sentir o mesmo desconforto de Serralves. Eu sei que parece demasiado rebuscado ir buscar a Física aristotélica para esta conversa mas foi mesmo dela que me lembrei para concluir que se cada objecto tem o seu lugar natural o das obras de Roy Lichtenstein é precisamente o Centro Comercial Colombo, algures entre uma loja da Zara e uma KFC. Mehr Licht, implorou Goethe no seu leito de morte. More Lichtenstein, irão desejar os comerciantes e clientes, certamente empolgados por esta erupção de arte na catedral do consumo.