05 junho, 2018

Já me tem acontecido entrar na sala de um museu, olhar de repente para um quadro que nunca tinha visto, por vezes não passando de uma imagem sincrética devido à distância e, mesmo assim, conseguir identificar o autor. Sempre que isso acontece fico bastante satisfeito mas esclareço que isto nada tem que ver com um sentimento de vaidade ou coisa do género. Nem poderia ter. Como acontece com toda a gente, há coisas que sei e coisas que não sei (infinitamente mais do que as primeiras), há coisas que sei e muita gente não sabe (muitas delas não interessam nem ao Menino Jesus) e coisas que muita gente sabe mas eu não sei. Não há pois motivo para vaidades, apenas um prazer privado que nasce e morre naquele preciso momento.

Quem me pode ajudar a explicar tal satisfação é Katherine Weber, num romance chamado A Lição de Música, título pedido emprestado ao quadro de Vermeer com o mesmo nome. Perto do final, diz a narradora que Vermeer "Pintou a nossa maneira de ver, e não apenas aquilo que podemos ver". Na mouche! Parece-me, todavia, que o que diz de Vermeer é extensivo a qualquer outro grande pintor. O que há de especial com muitos pintores não são apenas certas qualidades técnicas. O que faz um grande pintor é sobretudo a sua capacidade de criar um mundo novo, o qual jamais existiria não fosse a sua imaginação. Um mundo no qual depois entramos para reconhecer as suas características únicas e inconfundíveis, que tanto podem ter a realidade empírica como referência, como serem auto-referenciais no caso de caminharem para a abstracção.

Visitar certos pintores é como visitar lugares já conhecidos. Se nos meterem num avião de olhos vendados e horas depois formos largados numa rua ou praça onde nunca tenhamos estado, pode acontecer adivinharmos, ainda que por aproximação, o sítio onde nos encontramos. Há espaços, arquitecturas, atmosferas, pessoas que só poderão existir na Índia, no meio dos EUA, na Argentina, na África, no sul, centro, norte ou leste da Europa. Depois, ruas ou praças que só existirão em Itália, outras na Holanda ou na Bélgica, outras ainda no centro da Europa como é o caso de Viena, Praga ou Cracóvia, recantos que só existem em Lisboa, Paris, Nápoles, Argel ou Marraquexe, certas paisagens que se vêem no norte da Escócia, Ilhas Faroé ou Açores, nunca num mediterrâneo seco e salpicado de oliveiras, figueiras e laranjeiras, enfim, pequenas aldeias que associamos à Arménia, Noruega, Mali, Grécia ou à nossa Beira Baixa.

O mesmo se passa com a pintura. Com quadros para os quais olhamos e logo pensamos no mundo criado pelo seu pintor. Artistas que ao pintarem os seus quadros acabam também por pintar a nossa maneira de os ver, uma vez que olhar para cada quadro implica uma maneira própria de olhar. Cá está! O pintor pinta o que podemos ver quando resolve criar um mundo e sendo assim, o que podemos ver é o que o pintor resolveu que iríamos ver. E tanto assim é, que ainda não vimos o mundo de um pintor que ainda não nasceu e que irá ser criado num futuro próximo. O que implica, também, pintar a nossa maneira de ver. Do mesmo modo que ler um texto é reescrevê-lo na nossa mente, aprendendo a ler com os textos que os escritores escreveram, aprender a olhar para o mundo de um pintor é aprender a pintar com os olhos o que ele previamente pintou com a mão. Daí o prazer de reconhecer um quadro que vemos a primeira vez, o prazer de ter aprendido a pintar com os olhos, movimentando-nos naquele mundo com o à vontade com que nos movimentamos na nossa própria casa, ainda que de olhos fechados.