08 junho, 2018

CRONOCRACIA

"A sobrecarga do sistema vasovegetativo com a excitação sexual não descarregada é o mecanismo central da angústia" Wilhelm Reich, A Função do Orgasmo

O vago sociólogo que há em mim leva-me diariamente às capas dos jornais, sendo a do Correio da Manhã a que mais me enche as medidas, ainda que me fique só pelos preliminares, digamos assim. Hoje, porém, o título: «CIÊNCIA GARANTE -Tempo ideal para relação sexual é meia hora», não poderia deixar-me indiferente, levando-me a ir em busca da notícia. Se há assunto que considero aborrecido para falar, pensar, discutir, problematizar, é o sexo. Mas o mesmo não se passa com a cada vez maior transformação do pensamento científico não só numa ideologia mas também numa religião ou catecismo para uso diário, fazendo-me sentir uma militante vontade de não me calar. 

Auguste Comte é hoje um desconhecido mas com o seu nome em muitas ruas espalhadas pelo país dos philosophes. Assim mais ou menos como as muitas ruas Cândido dos Reis que existem por cá: toda a gente conhece o nome mas ninguém sabe quem foi. Ah, e com um pequeno busto na praça da Sorbonne, em Paris, mesmo ao pé da livraria Vrin, só com livros de de Filosofia, grande parte dos quais ele iria rejeitar por não se enquadrarem no seu evangélico modelo de racionalidade científica. Porém, lá no seu céu positivista, onde repousa eternamente, há-de ser um morto feliz ao perceber cada vez mais como, cá em baixo, as pessoas precisam de gerir (a palavra é feia mas creio que apropriada) as suas vidas em função de empenhadas e surpreendentes descobertas científicas.

Ele é a quantidade de calorias, de vitaminas, de sementes, de frutos milagrosos, de iogurtes, de ovos, de batatas, de água por dia. Ele é o que faz bem aos olhos, à pele, às unhas, ao cabelo. Ele é o tempo ideal para fazer caminhadas e o ritmo ideal para que a caminhada surta efeito, se o exercício físico deve ser feito em jejum, desportos que fazem bem ao cérebro (creio que se exclui o xadrez). Ele são as microscópicas impurezas que se escondem nas maçanetas das portas, nos telemóveis, nos teclados de computador, nos esfregões da louça, entre os dentes de quem não usa fio dental. Ele são os psicólogos a ensinar, do alto da sua ciência, como devem os pais educar os filhos, os trabalhos de casa, os benefícios de aprender música, qual o tempo diário correcto com o telemóvel e jogos. Enfim, ele é mesmo muita, muita coisa mesmo.

O sexo, claro, teria de ficar no pódio. Desta vez, em concreto, para sugerir a ideia de que todo o casal deverá ter junto de si um cronómetro sempre que pratique o acto, de modo a funcionar em científica conformidade com padrões cientificamente testados por esforçados e competentes e cientistas que zelam pelas nossas vidas. Diria mais, um cronómetro com alarme para avisar nos momentos certos. Isso, independentemente de quaisquer circunstâncias. Registe-se então: mete-se o alarme nos 18 minutos quando se começa, passados os quais se volta a marcar, desta vez, entre os 8 e os 13 minutos. A partir daqui já se entrará em excesso, ameaçando a padronizada normalidade dos tempos certos, ou "timings", como agora se diz.

Muito bem, mas tenho uma dúvida. Kristen Mark, da Universidade do Kentucky, entrevistou 14400 pessoas que assumiram desejar que a duração fosse maior do que os 10 minutos de média, número a que se chegou a partir de um inquérito junto de 4000 britânicos. Será que faltarão apenas os 3 minutos para atingir os 13 minutos que a ciência considera o máximo ideal, ou as pessoas gostariam de, em vez dos científicos 13 minutos, fossem 15, 16, 18, 25, quiçá, hora e meia ou até, no caso do sexo tântrico, um fim-de-semana inteiro, apenas com alguns intervalos para comer e ver o telejornal? Se for o caso, e essa é a minha esperança, podemos estar perante um corte epistemológico entre o espontâneo desejo do senso comum e a racionalidade da descoberta científica ou mesmo de um acto de resistência contra a prepotência racional do dogmatismo científico e dos seus mecânicos cronómetros. Quando Reich escreveu A Função do Orgasmo, fê-lo com a convicção de se tratar de um texto revolucionário, centrando a libertação da humanidade no sexo, graças a um enquadramento científico e político. Quem sabe se hoje não será o contrário: ser revolucionário é aprender a resistir a uma visão científica do sexo ou, já agora, de tudo o resto. No caso do sexo, começando por lembrar o mito de Cronos, o qual devorou os seus filhos.