13 junho, 2018

CENOTÁFIOS

Não vejo o acto de ler como um bem em si mesmo nem o não ler como um mal. Ver as coisas dessa maneira revela uma visão bibliocêntrica que põe em causa a liberdade de não ler, de se obter prazer por outras vias, de se poder ser normal, realizado e feliz sem precisar de ler, e que o digam os Esteves sem metafísica deste mundo. Ler é bom? Sim, claro. Há livros que me deram e a muitas outras pessoas um enorme prazer, mas também não me parece especialmente dramático não sentir qualquer prazer em ler e que os tais livros, ou mesmo quaisquer outros, que me deram, e a outras pessoas, prazer, nada digam a muitas pessoas que, só por isso, devem ser vistas como imundos trogloditas. Nem entendo que se possa ser melhor ou pior pessoa por ler ou deixar de ler.

Posto isto, quero agora evidenciar esta entrevista. Diz o entrevistado haver pessoas que compram livros, não para ler mas para coleccionar. Parece-me, entretanto, que o facto de se comprar livros que não vão ser lidos não se esgota na referida situação de desejar tê-los apenas enquanto peças de colecção. Parece-me ocorrer também o facto de se comprar livros não devido a um gosto pela leitura mas pela ideia de gosto pela leitura. Mais do que ler, gosta-se da ideia de ler ou de ter o que se gostaria de ler. Isto acontece porque ainda vivemos sob um paradigma bibliófilo, o que está muito longe de implicar que toda a gente lesse ou gostasse de ler. Significa apenas ver o livro como elemento fundamental da nossa história e civilização, sendo por isso valorizado por elites sociais e culturais que arrastavam consigo muitas outras pessoas que se habituaram a ver no livro uma peça importante da sua educação e formação. Trata-se, porém, de um paradigma em crise. Crise que não se avalia pela ausência de livrarias, pela ausência de livros e pela ausência de pessoas que compram livros. Aliás, nunca se publicou tanto como agora e nunca se compraram tantos livros como agora, o que acontece porque ainda fomos educados a ver o livro como elemento fundamental da nossa educação e formação, associando a sua ausência à ausência de educação e formação. E é bom comprar um livro, levar o livro para casa, abri-lo, cheirá-lo, folheá-lo, passar os olhos por ele. Livro que se compra porque se ouviu, algures, falar nele, talvez até num jornal, porque se tem boas referências do autor, porque é um autor que já foi percebido como autor que se deve ter para se poder ter o que se considera dever ter.

Porém, depois de tudo isto, da parte bonita de tudo isto, vem o mais difícil: ter de os ler. O que não é impedimento para se falar nele, de sentir que se leu apenas pelo mágico poder da sua posse, ou até mesmo rejubilar por se encontrar alguém que também o tem e do qual também gosta, apesar de também não o ter lido. Sim, é perfeitamente possível duas pessoas conversarem sobre um livro, apenas porque o têm, apenas porque gostam da onda do autor ou só apenas porque o folhearam e sabem umas coisas sobre ele. É neste sentido que os livros se tornam cada vez mais cenotáfios. O cenotáfio é um túmulo que invoca uma pessoa que lá não está. Não está mas é como se estivesse, não deixando por isso de ser homenageada. É isso que os livros são cada vez mais numa estante. Estão lá mas apenas para invocar a sua ideia, o seu valor, a sua memória.