31 maio, 2018

PUREZA E PERIGO


Uma das primeiras coisas que aprendemos na escola é a diferença entre substantivo e adjectivo. Mas uma coisa é a gramática, outra o pragmatismo da vida. Isto porque existem palavras que sendo substantivos tornam-se igualmente adjectivos em função de certos contextos sociais e idiossincrasias, qualificando negativamente ou positivamente as pessoas. Por exemplo, substantivos como "comunista", "empresário", "toureiro", "americano", "judeu", "preto", "político" e tantos outros.

Substantivo que se tornou agudamente adjectivo é "mulher". Não no mundo normal, pois para a esmagadora maioria das pessoas uma mulher é apenas uma mulher mas para certas mulheres cuja imaginação mistifica o que a esmagadora maioria das pessoas pensa sobre uma mulher. É assim que funciona o interior de cabeças como a de Isabel Moreira. Falo de Isabel Moreira apenas devido a esta recente indignação a respeito deste filme. Eu não conheço Isabel Moreira, o que até me deixa bastante feliz e aliviado, embora haja sempre o risco de um dia passar por ela na rua pois pode dar-se o caso de olhar para ela durante mais de três segundos, o que me pode trazer consequências desagradáveis. Porém, ao contrário do que se passa com a mente de um morcego, é muito fácil saber o que acontece no interior da sua sempre que surge qualquer referência, comentário, imagem, enfim, qualquer coisa, que envolva mulheres.

Pronto, o filme é muito mau e só a minha enorme paciência me permitiu chegar ao fim, mas também não é isso que importa. Limita-se e mostrar uma mulher em sofrimento associado ao tabaco, vendo-se, através de várias analepses, o contraste entre o presente e tempos felizes em que ainda tinha saúde mas onde a presença do cigarro, à época, inocente, se revela, a posteriori, terrivelmente ameaçadora. Apenas isto, e nada no filme mostra que uma mulher, por fumar, vai "ser mal-amada, não vai encontrar o amor ou desproteger os seus filhos". Por sinal, acaba por ser precisamente o contrário, o que qualquer pessoa normal consegue ver. Mostra, sim, que fumar faz mal, neste caso, uma mulher, tal como aconteceria se fosse com um homem.

De acordo com o fascismo isabelino, o problema aqui é mesmo ser uma mulher, presumindo eu que aceita o facto de fumar fazer mal à saúde. Se fosse um homem na mesma situação, tudo seria normal pois um homem doente é apenas um homem doente. Já uma mulher doente não pode ser apenas uma mulher doente, tendo que existir um qualquer sentido latente escondido no conteúdo manifesto, o qual tem de ser desconstruído. Ora, é precisamente aqui que se pode constatar uma doentia e fanática obsessão face à substantiva pureza  da mulher. Do mesmo modo que, num filme, um preto não deve surgir associado a nada de negativo sob pena de se estar a incitar crenças e sentimentos racistas, também uma mulher deve estar protegida de qualquer tipo de impureza que possa manchar a sua identidade. Se uma mulher grita é histérica. Se uma mulher está deprimida é porque as mulheres são depressivas, se uma mulher política tem mau feitio ou uma mulher executiva é pérfida é porque estamos a achincalhar mulheres com sucesso social. Em suma, uma mulher tem de ser pura, não no sentido de ter de casar de branco e com um ramo de laranjeira na mão mas de manter uma imaculada identidade pessoal e social.

Porém, trata-se de atitude totalitária e persecutória em que o feitiço se vira contra a feiticeira. Quanto maior for esta doentia necessidade de salvaguardar a identidade da mulher, de a proteger de todos os perigos e ameaças, mais se evidencia o facto de não ser a mulher, ao contrário do homem, apenas um género revestido de normalidade. Não se trata aqui de defender a mulher face a situações de discriminação que já não deveriam existir, lutando por uma normalidade e equidade a que obviamente tem direito. Trata-se, sim, de continuar a alimentar a fragilidade da mulher como na história da princesa e da ervilha. Enquanto houver uma simples ervilha por baixo de vários colchões, a mulher irá continuar a sentir-se ameaçada. O que nunca acontecerá com um homem, ainda que durma sobre sacos de ervilhas. Ai que bom ser homem!