11 maio, 2018

OLÍMPICO CATOLICISMO


Pronto, tenho que admitir, o meu espírito pagão já teve melhores dias. Ontem, dia da espiga, dia de ir para o campo celebrar a fecundidade e primaveril renovação da natureza, resolvi entrar em duas igrejas, separadas por poucos metros no Chiado e nas quais nunca havia entrado, apesar de passar por elas vezes sem conta: a Basílica dos Mártires e a Igreja de Nossa Senhora da Encarnação. Entro na primeira e logo encontro imensos turistas com ar nórdico. Talvez em virtude de também ali estar na condição de turista, resolvi fazer um exercício mental: transfigurar-me em homem alto, loiro, de olhos azuis, falando uma daquelas línguas que a morte falaria se tivesse boca para o fazer, para tentar entender o impacto que aquela igreja iria ter no protestante em que eu me tornara.

Foi tremendo. Começou logo pelo altar principal para onde logo olhei, no extremo oposto da entrada, verdadeiro centro simbólico de uma igreja, que não por acaso se chama cristã. Quem lá estava não era, como seria de esperar numa igreja cristã, um Cristo, mas uma mulher. E uma mulher à qual havia pessoas a rezar. Tentando afugentar o choque inicial, resolvi circular. Do lado direito, uma caixa de esmolas para o culto de Santo Expedito, cheia de placas metálicas colocadas por inúmeros fiéis para agradecer Graças do santo. Olho para a direita, no extremo oposto, vejo uma caixa igual e vou espreitar. Outra caixa de esmolas, também cheia de placas metálicas, mas desta vez para agradecer a São Judas Tadeu. Entretanto, resolvo avançar para observar os diversos altares laterais que percebi existirem. Foi então que dei conta dos altares de Santa Luzia, de Nossa Senhora das dores, de São Miguel Arcanjo, de Santa Filomena, de Santa Cecília e de Santo António.

O alto, loiro e de olhos azuis que há em mim ficou de tal modo atordoado, uma vez que sempre ouvira ser Portugal um país cristão, que agora já nem me lembro se havia por lá algum Cristo. A minha perturbada memória faz-me acreditar que sim mas de tal modo perdido e insignificante no meio de toda aquela overdose hagiográfica, que já nem sei onde estaria e, não menos importante, a fazer o quê. Saí estupefacto daquele católico Olimpo, resolvendo ir então até à igreja vizinha, não sem antes cumprimentar o poeta sentado na Brasileira, na esperança de que o que havia visto não passasse de uma inconsequente excentricidade. Entro e, a medo, tapando um dos meus olhos com a mão, olho lá para o fundo. E o que vejo?  Uma mulher! Novamente, uma mulher como centro daquela igreja cujo nome agora começa a fazer sentido para mim. Foi então já com a voz de Lutero a soar tonitruantemente no meu cérebro "Sola scriptura, sola scriptura, sola scriptura", que resolvo fazer um novo périplo mas apenas para ter a mesma e estranha experiência da igreja anterior.

Saio rapidamente para a famosa luz de Lisboa, desta vez com a noção clara do que já havia lido em tempos mas com alguma dificuldade em acreditar: o catolicismo não é mais do que um politeísmo cujas figuras sagradas, como em Homero, seja na Odisseia ou na Ilíada, vivem no meio de nós, intercedendo ou não por nós, podendo nós ter uma relação melhor ou mais personalizada com uns do que com outros. Em suma, no dia da espiga acabei por não deixar de ter uma experiência pagã, se bem que no interior de um igreja, vá, cristã. Valeram-me os dois pastéis de nata que comi no Camões com canela e açúcar para repor os níveis energéticos tão rapidamente gastos numa igreja católica deste maravilhoso mas estranho país do sul da Europa, abençoado pelo Sol e pelo mar.