20 maio, 2018

OLHA PARA O QUE EU DIGO


Do mundo, interessa-me apenas a dose certa para manter o equilíbrio entre o meu mundo privado e a parte daquele em que me calhou viver. A leitura diária de um jornal e uma hegeliana oração matinal de 20 minutos que consiste em consultar as capas de jornais nacionais e internacionais (com ligação ao que me faz levantar as orelhas), permite-me saber o que se passa para além da minha rua.

Basta isto para perceber a mera lógica alfandegária do fim das fronteiras. Em Portugal, não se fala noutra coisa senão em Sócrates, Pinho ou Bruno. Chega-se ali a Badajoz e já ninguém sabe quem é Pinho ou Bruno, e de Sócrates só os mais politizados terão uma vaga ideia. Entretanto, este assunto chega a Elvas e mais parece a parte final da  imponente onda que já só lambe a areia. Mas é pena pois é bem mais estimulante. Os casos de Sócrates, Pinho ou Salgado são, sem dúvida, políticos e merecedores de introspectiva reflexão em congresso. Mas são sobretudo casos judiciais, enquanto o de Bruno não passa de um problema de gestão desportiva de um clube de futebol.

Já o caso de Pablo Iglesias e Irene Montero tem uma natureza mais ideológica e que me motiva duas questões: 1. Pode alguém como uma ideologia anticapitalista ser rico ou ter um estilo de vida apenas ao alcance de quem é rico? 2. Não sendo rico, pode pedir empréstimos bancários para ter um estilo de vida apenas ao alcance de quem é rico? Fico-me só pela discussão ideológica, pondo de lado a habitual espuma dos dias, como é o caso da virginal reacção do dirigente espanhol ao problema ("Sou sincero, não imaginava que isto iria provocar um debate e notícias destas dimensões"), a fazer lembrar a reacção do presidente do Sporting quando se refere aos incidentes de Alcochete como sendo "chatos", ou o facto de ter afirmado há uns anos que um político como Luis Guindos não merece qualquer confiança do povo, por comprar uma casa por um valor... próximo daquele com que o casal fez agora a sua hipoteca.

Pablo Iglesias e Irene Montero, sendo deputados, têm um nível de vida que lhes permite a hipoteca de uma moradia de luxo, com piscina, jardim e casa de hóspedes. Mas não deveriam fazê-lo, e não se trata apenas de proteger a imagem de alguém cujo estilo assume ostensivamente, e até narcisisticamente, uma posição de contra-corrente face ao sistema que tanto criticam, lembrando os primeiros cristãos face à hierarquia político-religiosa judaica. É muito mais do que isso: a vertente anti-capitalista e modelo de sociedade preconizado pelo Podemos é incompatível com o facto de haver pessoas ricas ou cujas vidas impliquem a posse de certos bens considerados luxuosos.

Pode dizer-se que a partir do momento em que "ainda" não se vive no tipo de sociedade que a sua ideologia defende, essas pessoas não são mais, nem menos, do que as outras, tendo o direito de usufruir dos mesmos bens. Mas isso é como uma pessoa ser fortemente contra a corrupção mas, atendendo ao facto de esta existir, não querer ficar em desvantagem, sem acesso a bens resultantes de actos de corrupção. Não dá, pois estamos a falar de princípios e não de um contrato que deve ser cumprido pelas várias partes. Militantes de qualquer partido anticapitalista, que não gosta da economia de mercado e que luta contra os interesses de quem, graças a essa economia, se demarca da restante sociedade, não podem sequer sonhar em ter uma casa ou carro cuja posse só é possível em virtude dos benefícios tornados possíveis por esse modelo de sociedade que combatem. Desejar, isso sim, uma casa ou um carro cujo valor médio corresponde à casa ou carro possíveis em função do tipo de economia e sociedade que defendem. Pelas mesmas razões, nem pensar em frequentar restaurantes de luxo, vestir roupas de marca, perfumes que não sejam os que se vendem no supermercado, dormir em hotéis com mais de duas estrelas, em suma, todo o tipo de bem que apenas existe porque existem elites sociais e económicas tornadas possíveis por uma economia de mercado.

Como bom partido populista, diz o Podemos que nem é de esquerda ou de direita, velhas categorias que já não respondem aos problemas da actual sociedade. É, sim, contra males, como a existência de privilegiados e não privilegiados ou de uma minoria enriquecida e uma maioria empobrecida. Pois bem, percebe-se que o Podemos quer acabar com os pobres, o que só lhe fica bem. Mas, pelos vistos, também não se dá bem com os ricos. Acontece que uma sociedade em que os pobres passem todos a viver como os ricos é impossível. A existir igualdade social nunca será por cima mas por baixo ou pelo meio. Por baixo, sim, é fácil, basta pensar nos países que foram e ainda são inspirados por ideologias anti-capitalistas. Pelo meio, também é possível mas para isso são necessários modelos que contrariam o projecto social e económico de partidos como o Podemos.

Pablo Iglesias e Irene Montero fazem muito bem em desejar uma moradia de luxo. Apenas deveriam mudar de partido para o fazer. Mas também é natural que, nesse caso, tivessem mais dificuldade em ser eleitos e, assim, usufruir do vencimento de deputado que permitiu a hipoteca que tanto desejaram.