14 maio, 2018

O INSTANTE DECISIVO



Wilhelm Dilthey é um filósofo alemão do século XIX, pouco conhecido mas que teve um papel importante ao distinguir duas áreas do saber: as ciências da natureza e as ciências do espírito. Uma coisa é explicar fenómenos meramente causais, mecânicos, físicos, como são os naturais; outra é compreender situações vividas por seres humanos, movidos por desejos, emoções, sentimentos, ideias. Explicar é o que faz uma ciência como a Biologia perante o comportamento das formigas ou o efeito de um aminoácido num organismo. Já a História, perante factos como a Magna Carta, a Revolução Francesa ou as angústias existenciais e morais do PS, o que tem de fazer é compreender.

A conversa vem a propósito desta fotografia de Ryan Kelly, 2ºprémio da World Press Photo 2018, na categoria "Spot News". O que aqui se vê são pessoas que protestavam contra uma manifestação de extrema-direita, sendo atropeladas por um supremacista branco. Dificilmente conseguimos imaginar um instante mais decisivo e irrepetível do que este impressionante congelamento da acção. Um segundo antes ou depois e perdia-se o momento. No entanto, o que aqui vemos é simplesmente o microscópico instante de uma sequência temporal, impossível de captar a olho nu. Mas se a situação tivesse sido acompanhada por uma câmara de filmar que estivesse ali com o simples e ingénuo objectivo de fazer a reportagem da manifestação, apanhando por acaso o atropelamento, poderíamos igualmente ver toda a milimétrica sequência através dos seus fotogramas, até chegarmos ao que iria coincidir com a fotografia. Trata-se apenas de um facto neutro em que se vêem corpos e objectos numa determinada posição devido a uma sequência de causas e efeitos. Lembra o que diz Platão, no Fédon, quando se trata apenas de explicar o que acontece num corpo humano que caminha na rua, através do movimento dos ossos, músculos, tendões, órgãos, etc.

Ora, muito diferente é o "instante decisivo" de que falava Henti Cartier-Bresson. Dizia ele que, na fotografia, o assunto não é dado pelo facto, o qual, em si mesmo, não tem qualquer interesse. O que verdadeiramente importa é saber olhar para o facto mas para compreender a sua profundidade, a qual, muitas vezes, também não é vista a olho nu. Daí que uma boa fotografia envolva simultaneamente "o cérebro, o olho e o coração".  A fotografia é, neste sentido, como dizia Leonardo da Vinci a respeito da pintura, cosa mentale, transmitindo, não uma simples realidade física ou factual mas uma impressão. Por isso não faz sentido «disparar o obturador como uma metralhadora, fotografando rápido e mecanicamente, enchendo-nos de coisas inúteis que confundem a memória e prejudicam a nitidez do todo». O instante decisivo é um momento único e irrepetível como o da fotografia lá em cima mas buscando um significado que só a máquina pode desvendar graças à argúcia e sensibilidade do fotógrafo.

Voltando a Platão, uma coisa é explicar o movimento do corpo através de uma causalidade física, outra será compreender por que se movimenta. É o corpo de alguém que vai trabalhar, namorar, almoçar, comprar o jornal? E se vai comprar o jornal, qual será e por que razão é esse que compra? Vai triste, alegre, pensativo, contrariado? E o que haverá de insólito no seu andar, nos seus gestos, no seu olhar, e que os músculos, os tendões e os ossos só por si não podem explicar? É por isso que esta fotografia, ao contrário das muitas de Henri Cartier-Bresson, nada me diz. Satisfaz a nossa algo fútil e caprichosa curiosidade em vermos o que não conseguimos a olho nu, podemos ainda gabar a qualidade da máquina ou a apurada técnica do fotógrafo, as quais tornam possível tão espectacular fotografia, e pronto, já está. Parece-me pouco.