15 maio, 2018

HARMONIA DOS CONTRÁRIOS





Uma dicotomia implica uma diferença mas duas coisas diferentes apenas circunstancialmente serão dicotómicas. Peixe, árvore, carro, livro, são coisas muito diferentes mas não dicotómicas. Pensar em peixe, não leva a pensar em árvore, pensar em árvore, não leva a pensar em carro, pensar em carro não leva a pensar em livro. O que há de quase paradoxal numa dicotomia é o facto da oposição radical entre duas coisas acabar por uni-las num todo em que a existência de uma implica a existência da outra: bem/mal, norte/sul, sagrado/profano, aberto fechado, céu/inferno, deus/diabo, guerra/paz

A primeira coisa que me passou pela cabeça quando vi esta fotografia de Francesco Pistilli (World Press Photo 2018, nomeação na categoria General News) foi este quadro de Sorolla. Há muitas imagens que fazem pensar noutras. Nada mais natural do que olhar para um ou outro quadro de Bruegel e vir à memória um de Bosch, e o mesmo se pode passar entre George Grosz e Otto Dix ou entre Monet e Pissarro. Associação que ocorre em virtude de uma semelhança, seja no todo, seja num pormenor. Mas isso faz apenas com que se interseccionem, partilhem um ponto comum, o qual, se não existisse, anularia qualquer associação. Mas mesmo havendo as semelhanças entre duas coisas, são sempre contingentes ou relativas. Qual é a semelhança entre um leão e um caracol? Nenhuma. Mas se pusermos o leão e o caracol ao lado de um micro-ondas, passam a partilhar semelhanças: são seres vivos, alimentam-se, movimentam-se, etc..

O que acontece entre a fotografia e a tela de Sorolla é uma ligação que resulta de cada uma ser a absoluta negação da outra. Já não se trata, como no caso anterior, de encontrar um ponto comum ou uma semelhança relativa e contingente mas de poder ver melhor uma através da outra, pois cada uma é, radicalmente, o que a outra, radicalmente, não é. Ver Clotilde, mulher de Sorolla, e uma das filhas, mergulhadas num manto de brancura revela serenidade, pureza, harmonia, tranquilidade, conforto, lar, amor, tudo isso assegurado, e mesmo reforçado, pela força monocromática da tela.  Na fotografia, por sua vez, há também uma figura humana quase submergida na cor. Mas desta vez para revelar a experiência absolutamente contrária: solidão, abandono, perdição, desconforto, depressão, exílio, total ausência de amor. Tudo isso, como na tela de Sorolla, reforçado por uma força monocromática mas de sentido contrário.

Nunca mais irei pensar numa sem pensar na outra, seja qual for a ordem.