24 maio, 2018


Foi através de Albino Forjaz de Sampaio (Palavras Cínicas) que conheci Georges Rochegrosse, pintor, ilustrador e gravador francês. Não foi uma grande descoberta. Basta pensar um bocadinho no que foi a pintura francesa do século XIX e depois olhar para a de Rochegrosse para logo se perceber estarmos noutra dimensão. Também é verdade que Forjaz de Sampaio não se refere ao artista ou à obra mas apenas a este trabalho, que se apresenta com dois títulos, "Angústia Humana" ou "A Corrida da Felicidade". Mas embora a sua visão seja correcta, torna-se demasiado descritiva, limita-se a registar o que os olhos vêem: o modo como as pessoas estão vestidas, os empurrões, as pisadelas, os socos, os rostos doentes, a condição dramática e agónica de toda aquela gente, da competição, da ambição, do desejo de poder, quando, afinal, o que os espera, lá no alto, é a morte. Porém, não fala do que me parece ser o mais importante: sobem para quê?

Todos nós procuramos bens que não são fins em si mesmos mas meios para atingir outros bens. A gasolina é um bem necessário para outro bem que é pôr um carro a andar, enquanto meio para outro bem que é poder ir ao médico, enquanto meio para se obter outro bem que é uma receita, enquanto meio para outro bem que são os comprimidos, que são um meio para se conseguir outro bem que é dormir melhor, que é um meio para outro bem que é uma pessoa sentir-se bem durante o dia. Chegados aqui, já ninguém pergunta para que serve uma pessoa sentir-se bem durante o dia. Os mais empreendedores ainda poderão dizer que sentir-se bem é um meio importante para trabalhar melhor, ser mais produtivo. Sim, também. Mas sentir-se bem é um estado que toda a gente procura seja em que circunstância for, inclusivamente quando se pretende não fazer absolutamente nada.

Ora, é este tipo de exercício que deve ser feito ante a deprimente cena pintada por Rochegrosse. Por que deseja toda aquela gente subir tanto? Que tipo de bens procuram e por que os procuram? Dinheiro? Poder? Prestígio?  À partida, não há nada de errado em querer dinheiro, poder ou prestígio. A questão é quando o desejo de ter dinheiro, poder ou prestígio conduz a uma luta sem fim e é precisamente neste ponto que está o valor da cena. Rochegrosse começa por baixo mas eu prefiro ir logo à parte de cima. Olhemos para as pessoas que estão no topo, já com os braços livres para os esticar. Suponhamos agora que estas mesmas pessoas irão ser ultrapassadas pelas que estão imediatamente abaixo delas, as quais, depois, irão ser igualmente ultrapassadas por outras. Ora, por muitas ultrapassagens que possam existir, por muito grande que seja escalada, acontece a esta torre humana o mesmo que com a bíblica Torre de Babel: sobe, sobe, sobe, mas nunca chegará a um fim. Por muito que subam e se espezinhem subindo, será sempre o ar, o vazio, o nada, que irão encontrar e, em última instância e inevitavelmente, a morte. Trata-se de saber se toda esta existência agónica, toda esta luta, corrida, ansiedade, angústia, conduz àquele bem que Aristóteles, na Ética a Nicómaco, considera ser o mais valioso dos bens e, este sim, o verdadeiro fim em si mesmo: a felicidade. Parece-me que esta corrida, mais do que ser uma corrida de cada um contra todos os outros será uma corrida de cada um contra si mesmo, sendo a derrota o mais provável dos fins.